sexta-feira, outubro 23, 2015

O homem de Jericó

Jericó era um oásis. O seu clima suave e tépido era propício para fartos pomares, roseirais e palmeiras.

Era ali que morava Zaqueu. Era um colector de impostos para o Império Romano. Também tinha seus lucrativos negócios.

Zaqueu e sua mulher viviam isolados da vida social de Jericó. Quando davam festas, os únicos convidados eram sempre os parentes e os funcionários da alfândega.

Extremamente rico, ele tinha uma consciência de inferioridade, face ao tratamento que recebia do seu povo. 

Todos o desprezavam porque trabalhava para o opressor romano.

Sua consciência lhe dizia que nunca prejudicara a ninguém, pois que procurava ser justo.

Então, às vésperas da Páscoa, se espalhou a notícia de que o Rabi da Galileia, a quem chamavam Jesus de Nazaré, chegaria a cidade.

Zaqueu ouvira falar d´Ele e uma secreta simpatia o invadira. 

Aquele era o Homem que dizia que todos deveriam se amar como irmãos, que comia à mesa dos publicanos e se misturava com o povo.

Junto a numerosas pessoas, ele foi receber Jesus à entrada da cidade.

De pequena estatura, gordo, pernas curtas, por mais se pusesse na ponta dos pés, não conseguia ver coisa alguma.

Ofereceu moedas a um homem para que lhe vendesse um jumento. Pensou que subindo nele, talvez pudesse enxergar.
Mas o homem desprezou o seu dinheiro.

Pediu a um homem muito alto que o erguesse, em troca de sua bolsa cheia de moedas. Em vão.

Empurrado e pisado pela multidão, finalmente Zaqueu conseguiu ver, à beira da estrada, uma árvore.

Era uma mistura de figueira e amoreira, um sicômoro, com raízes grossas para fora da terra.

Mais do que depressa, nela subiu e sorriu feliz. Dali, ele podia ver o Mestre se aproximando.

E uniu a sua voz a de todos os demais, gritando hosanas a Jesus.

Quando o Mestre passou pela árvore, olhou para cima e ao ver aquele homem agarrado aos galhos, como se fosse um fruto, lhe disse:

Zaqueu! Desce depressa, porque hoje me convém pernoitar em tua casa.

O homem desceu rápido, correu para casa para, junto com a mulher, preparar o melhor para o conviva.

Na sua intimidade dizia que não era digno que criatura de tão nobre estirpe entrasse em sua casa.

Mentalmente, reviu os negócios. Teria lesado alguém? Teria recebido a mais?

Talvez tivesse comprado terras a preço irrisório e as vendido com lucro excessivo. Sente-se atormentar.

Quando observa o Amigo chegando, acompanhado por grande multidão, vai ao encontro d´Ele e exclama:

Senhor, eis que dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado! Entra na minha casa!

Jesus sorriu, um riso leve e bom como um sopro de amor.

Hoje - disse suave - veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.

Narram tradições evangélicas que, anos mais tarde, Simão Pedro convidou o antigo publicano a dirigir florescente comunidade cristã, nas terras de Cesareia.

E Zaqueu, rico de amor e humildade, foi servir a Jesus, servindo aos homens.

*   *   *

Somos muitos os que aguardamos por Jesus, nas estradas amarguradas em que nos encontramos.

Atendamos ao chamado e nos tornemos criaturas felizes. Sirvamos.

com base  no cap. 18, do livro Vida e mensagem, pelo Espírito Francisco de Paula Vítor, psicografia de Raul Teixeira, ed. Fráter.

terça-feira, outubro 13, 2015

MUNDO INFORMÁTICO

NO DIA EM QUE AS PROMESSAS, AS PROFECIAS, JORRAREM JOGADAS NA RUA
SABERÁS QUE O DIA CHEGOU ANTES DE TERES DADO CONTA
CAPTURADO
PODERIAS TER EVITADO

AGORA SABERÁS TER ENFRENTADO.

segunda-feira, outubro 12, 2015

Da escuridão para a Luz

Para a autoconsciência desta migração constante de um para outro extremo, será interessante algumas propostas de reflexão.

Sendo dois estados opostos, ambos detém um centro comum e ao menos duas vias principais comunicantes entre eles.

Imaginemos na manifestação de vida e mais concretamente num humano, seria proposto o humano como o eixo ou centro, ou ainda consciência destes dois extremos, a um lado escuridão e sua via comunicante e a um outro luz e sua respectiva via comunicante.


 A visualizar esta proposta como um balancé, temos nos opostos os assentos e nos seus prolongamentos em direcção ao centro onde está montada a estrutura que os suporta, o eixo ou ponto central de onde as forças são diametralmente opostas e semelhantes.

Assim, é a consciência centrada que detém o desvio de se deslocar para qualquer um dos extremos, originando desequilíbrios.

A luz proporciona a consciência do seu oposto e vice-versa.

Assim dentre estes dois extremos necessária se faz a consciência, que é o que devolve equilíbrio e equanimidade.

No ser humano ainda que sendo constituído na menor parte por matéria, sua densidade magnética é característica e fundamental para a constituição ou base expancional dos restantes atributos não materiais desta mesma constituição humana.

Tem por interesse para o mantenimento do posicionamento equilibrado e equidistante de ambos, luz e escuridão, o centro ou o igual afastamento do corpo da matéria de seus extremos.

Resumindo;

No decurso das actividades diárias humanas, a consciência pessoal secundada pela consciência colectiva, constituem a habitação do espírito.

Esta habitação ou corpo manifestado é consubstanciado nos extremos, estes por sua vez descaracterizados na periferia do ser.

A luz ambiciona os estados iluminados.

A escuridão ambiciona os estados caóticos.

O ser humano consciente ambiciona o equilíbrio entre estes dois de forma de perpetuar a espécie e a evoluir sustentavelmente.

Faz-se neste propósito todo o sentido, daqueles movimentos filosóficos que promovem o caminho do meio ou o Tao, como caminho de virtude e de transcendência. 

No absoluto compromisso do correcto entendimento da transitoriedade humana, a promoção da espécie está correctamente garantida, sem tabus, mitos ou dogmas.

Somente no mergulho para dentro de si mesmo o Ser Humano almejará sair de si próprio para uma dimensão externa e expansionada. Mergulho tanto mais eficaz quanto mais autenticamente cultivado a sós, sem cultivo de grupo nem de piscina grupal.

Chega lá quem o funde em si ou seja por ele fundado.

sexta-feira, outubro 09, 2015

ALQUIMIA ESPIRITUAL

«Por que é que a maior parte dos humanos deixa as suas tendências instintivas desenvolverem-se livremente, sem que as suas faculdades superiores tenham uma palavra a dizer, para as controlarem, para as orientarem?... 

Ou, então, eles atiram-se a elas para as aniquilar, como se elas fossem inimigas da sua evolução. 

Pois bem, em ambos os casos eles cometem um erro, pois introduzem uma divisão entre o alto e o baixo. 

Ora, a Inteligência Cósmica previu que as faculdades superiores obteriam as suas energias nas funções inferiores; com efeito, estas são como raízes indispensáveis, para que a árvore que o homem é possa extrair da sua “terra” as substâncias que ele transformará para dar flores e frutos. 


Como é que, na árvore, se processa a transformação da seiva bruta, absorvida pelas raízes, em seiva elaborada?...

É nas folhas que se opera esta transformação, graças à luz do sol... 

Do mesmo modo, graças à luz do sol espiritual, nós podemos transformar em nós a seiva bruta, as nossas tendências instintivas, em seiva elaborada, que irá alimentar as flores e os frutos da nossa alma e do nosso espírito. 

Será assim que nos tornaremos verdadeiros alquimistas.» 

terça-feira, outubro 06, 2015

Verdade e consequência

Existe um jogo que na adolescência muitos faziam em grupo e era motivo de grande brincadeira. Denominava-se verdade ou consequência, seja ou se respondia com veracidade a uma questão colocada ou não o desejando se ficava sujeito a cumprir uma tarefa ou um outro qualquer castigo.

Não é deste jogo que trata o texto mas de um outro denominado, o jogo da vida.

É do tipo verdade e consequência, algo que nem todos reconhecem mas todos sem excepção podem confirmar assim o desejem.

Temos escolhas na vida e consequentemente geramos o que lhes está diametralmente oposto. Não raro as denominamos de escolhas erradas ou fora do nosso caminho. Escolhas não acertadas para nós apenas porque não definimos seguir. 

Abordando este tema  mais profundamente, estas referidas escolhas que perfazem o nosso lado sombrio por assim dizer, tendemos a identifica-las como escolhas pouco positivas, indesejáveis ou mesmo prejudiciais. Umas vezes é assim outras nem por isso.

Esta outra margem do que escolhemos para nós, gera em resultado da nossa escolha o que se pode denominar de uma consciência da transgressão. 

A consciência da transgressão é uma projecção de si mesmo deslocada para o plano ambivalente de si próprio. 
Genericamente, temos:

O que eu sou, onde estou e o caminho que escolho com todo o seu conteúdo.

O que eu não devo ser, onde não devo estar e o caminho que determino rejeitar com todo seu conteúdo.

É sobre este último as considerações e partilha de observações.

As forças entre estes opostos é diametralmente igual; quanto maior a intensidade despendida num deles maior o refluxo automático na ausência (apetência) do outro.

Assim enquanto realizas um caminho construído passo a passo corajosamente, tem um outro que imaterializado ganha atractividade e não é razoável de menosprezar.

Considerando que quando se move uma pessoa do campo das suas escolhas descriminadas para uma irresistibilidade de umas outras que em princípio se rejeitariam, assim se entra em transgressão consigo mesmo.

Notas acerca da transgressão. 

No humano a possibilidade da Transgressão é imensa, ao contrário de algumas ciências que pretendem delimitar os seus atributos, ela é potencialmente muito vasta. 

É muitas vezes associada a uma liberdade imensa, superior até ao gosto de cumprir. 

Trás junto consigo um espírito de rebelião, de fazer o que me havia destinado a não fazer, de coabitar com essa espécie de monstro dominador criado por mim e que em última instância me irá aprisionar. 

Numa sociedade essencialmente convencional, a transgressão converte-se facilmente num apetite insaciável, devorador da vontade, onde uma espécie de  liberdade demoníaca encontra a sua maior expansão.

No entanto saiba-se que esse fervor apesar de fascinar facilmente, não cumpre, não é o Céu nem tem Asas.

Não é um Paraíso cultivar assim o conhecimento do seu próprio negativo. 

É mais parecido com a suite de luxo do inferno.

terça-feira, setembro 29, 2015

TU ÉS TUDO AQUILO QUE FORES.


Assim como nas vias físicas, o cuidado, o prazer, a preocupação, o receio que sentimos por aqueles que estimamos muito, afecta a nossa vida e a de a quem apontamos o sentir, condiciona e interfere com uma intensidade ainda maior, ao nível do invisível.

Neste processo, tem o que pensas e o que fazes, em grande parte pela enorme quantidade de atenção necessária em graus de consciência desiguais e até desequilibrados.

Tu consegues muitas, algumas ou apenas uma vez que seja, compreender testemunhando esse processo natural. De sentir em ti mais que uma dinâmica de consciência acontecendo simultaneamente, muitas vezes do tipo seres o que és e ser auto-confrontado simultaneamente com o que gostarias ou acharias que deverias ser.

Dois caminhos distintos a partir da mesma origem, desiguais, intemperados e não poucas vezes divergentes, cheios de regra distintas moralidades e esforços intrínsecos.

Tem a certeza porém que o que acontece no campo das tuas percepções ditas grosseiras, acontece pela mesma natureza no campo ainda mais vasto e desconhecido da tua própria linguagem desconhecida ou seja invisível.

Como um invisual sentes e levas com ela, quer queiras quer não queiras e é assim que lhe testemunhas a acção.

Feliz nascimento esse de reconhecer a acção inequívoca daquilo que tu próprio geras ainda que lhe não reconheças o rosto.

Mas é assim mesmo, os cuidados que não reconheces mas expressas de alguma forma, eles criam uma vontade própria gerada no seio de ti mesmo e afectam a todos os que te rodeiam e em última instância, aqueles a quem são dirigidos.

Assim todas as tuas queixas tem origem em processos que te são legítimos e muito possivelmente tu alimentas. 

Assim nada mudará de fora para dentro porque não tem lá a sua origem. 

Assim, não adianta lamentares todas as desgraças que afinal são apenas lembrete à tua capacidade de criar, mal dirigida.

Tudo afinal acontece por sermos literalmente uns Deuses, cismados em negar o imenso poder que detém nossa própria vontade, auto-limitados pelo aspecto visível das emoções fortes, trágicas ou exageradas, renegando a nossa génese Divina a favor duma amálgama de turvas intenções que de forma organizada procuram arrecadar todos e cada um para o redil dos capturados.

Acordar para as capacidade que em ti residem, que sabes em ti se inquietam, calar o dialecto da banalidade que te assalta todos os dias, é reconhecer uma ajuda importante e Altíssima que tem a sua origem em ti mesmo e é capaz de mover montanhas… invisíveis é claro.

O teu futuro é construído agora.

A vida daqueles que para ti são mais influentes bebe desse destino que lhes dás, assim como tu desse néctar és alimentado.

Atenção portanto no teu processo de criar arte em ti.

Deixa as formas externas que sem tua participação nada valem. 


Do externo que não passe pelo crivo da tua consciência nada vale, são apenas figuras de estilo coordenadas a alimentarem estilos de vida morta, de esterilidade que nada vai doar de si mesma a ninguém porque não possui em si mesmo o Dom de doar a vida que não possui, que apenas aparentemente a toma pela sua forma externa.

À que acordar interiormente os níveis de percepção superiores, necessários a promover as nossas vidas e a dos demais. Tudo em nome de um destino que já nos está reservado pelos direitos que nos foram concedidos. 

Quem tem ouvidos para ouvir que ouça, como disse um Homem de Sonho.



terça-feira, setembro 22, 2015

COMO PODE ALGUÉM AJUDAR O SEU PAÍS.

Os dirigentes de um país estão continuamente expostos a críticas, à hostilidade ou à troça dos cidadãos. E por toda a parte, para divertir o público, nos bares, nos teatros, na rádio, na televisão, são feitas referências aos homens políticos em moldes ridículos e grotescos. 

Mesmo que, por vezes, haja razão para criticar e troçar, não será desta maneira que se irá levá-los a melhorar. 

Pelo contrário, atormentando-os com pensamentos e sentimentos negativos não só não se consegue nada, como ainda se cria no invisível as condições favoráveis para que eles cometam ainda mais erros e tomem decisões cada vez menos luminosas para o país. 

Sim! Como vedes, esta questão leva-nos muito longe. 

Assim, se quereis verdadeiramente ajudar o vosso país, em vez de praguejardes constantemente contra aquele que está à sua cabeça, enviai-lhe luz, a fim de que ele seja inspirado. Não podeis ajudar o vosso país todo porque ele é imenso, mas basta que ajudeis um homem, um só; é mais fácil, e ele fará bem a todos porque muitas coisas dependem de si. 

Se ele conseguir fazer aprovar leis sociais a favor da saúde pública, da habitação, da instrução, etc., todos beneficiarão, porque um só foi bem inspirado. 

Os cidadãos de um país devem tomar consciência, finalmente, das ligações que existem entre eles e os seus dirigentes. Não basta exigir isto e reclamar aquilo, é preciso aprender a conhecer os métodos mais eficazes para se obter o que se deseja, sem desencadear consequências ainda piores. 

Vós sabeis que a sabedoria dos povos se exprime frequentemente por contos. 

Há um que narra a história de um reino onde só aconteciam epidemias, fomes, tumultos. O rei, não sabendo o que fazer para remediar todas aquelas desgraças, mandou vir um sábio, e este disse- lhe: «Majestade, és tu a causa de todas as desgraças do teu reino. Vives na devassidão, és injusto, cruel, e por isso as catástrofes não param de cair sobre o teu povo.» Em seguida, o sábio apresentou-se diante do povo e disse-lhe: «Se sofreis, é porque o merecestes; pela vossa maneira insensata de viver, atraístes um monarca que causa a vossa infelicidade.» Eis como os sábios explicam as coisas. 

Quando os cidadãos de um país decidem viver na luz do espírito, o Céu envia-lhes governantes nobres e honestos que só trazem bênçãos; mas, se uma nação tem dirigentes que dão livre curso aos seus piores caprichos a expensas do povo, bem, aí é preciso que o povo tome consciência de que tem uma parte da responsabilidade. 

E depois, por que se há de querer sempre que as soluções venham dos outros, por mais altamente colocados que eles estejam? 

Por que se há de esperar que sejam sempre os outros a começar a trabalhar para melhorar a situação? 

Na vossa opinião, são sempre os outros que devem fazer esse esforço; mas por que haveriam eles de o fazer? 

Eles agem como vós, esperam que sejais vós a esforçar-vos primeiro, e isso pode durar eternamente. Então, decidi-vos vós, finalmente, a agir. 

Alguns perguntar-me-ão: «Mas o que é que está a aconselhar-nos? Quer que façamos uma carreira política?» 

Para mim, a questão não reside nisso. 

Quando eu falo de trabalho útil para a sociedade, subentendo em primeiro lugar um trabalho interior que cada um deve fazer sobre si próprio e que é sempre indispensável, quer a pessoa se lance, quer não, numa carreira política. 

A única actividade realmente importante na vida é tornarmo-nos mais lúcidos, mais generosos, menos interesseiros, mais senhores de nós próprios. 

Direis vós: «Sim, mas, se seguirmos esses conselhos, se fizermos esse esforço para nos aperfeiçoarmos e nos reforçarmos, as condições no mundo são tais que ficaremos a um canto, ignorados, obscuros, privados de todos os meios de acção.» Que sabeis vós a esse respeito? 

Se vos tornardes verdadeiramente capazes de manifestar as virtudes do espírito, mesmo que não conteis com isso, os outros recorrerão a vós como conselheiros, como guias. Se isso ainda não aconteceu é porque não o mereceis, é porque ainda não estais preparados para tal. 

É preciso aprender a contar com os poderes do espírito; é nisso que se vê o verdadeiro espiritualista. 

Quando se trata só de falar, muitas pessoas poderão dizer-se espiritualistas, farão discursos intermináveis sobre a reencarnação, a aura, as hierarquias dos anjos, mas não será isso que as ajudará a resolver os problemas da sociedade. 

Só se poderá resolver os problemas da sociedade se se fizer continuamente um esforço para despertar em si os poderes da vontade, do bem e da luz. 

quarta-feira, setembro 16, 2015

Aprender com o silêncio.....


"Aprenda com o silêncio a ouvir os sons interiores da sua alma, a calar-se nas discussões e assim evitar tragédias e desafectos. 

Aprenda com o silêncio a aceitar alguns factos que você provocou, a ser humilde deixando o orgulho gritar lá fora, a evitar reclamações vazias e sem sentido. 

Aprenda com o silêncio a reparar nas coisas mais simples, valorizar o que é belo, ouvir o que faz algum sentido.

Aprenda com o silêncio que a solidão não é o pior castigo, existem companhias bem piores. 

Aprenda com o silêncio que a vida é boa, que nós só precisamos olhar para o lado certo, ouvir a música certa, ler o livro certo.

Aprenda com o silêncio que tudo tem um ciclo, como as marés que insistem em ir e voltar, os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar. Como a Terra que faz a volta completa sobre o seu próprio eixo, complete a sua tarefa.

Aprenda com o silêncio a respeitar a sua vida, valorizar o seu dia, enxergar as qualidades que você possui, equilibrar os defeitos que você tem e sabe que precisa corrigir, e enxergar aqueles que você ainda não descobriu. 

Aprenda com o silêncio a relaxar, mesmo no pior trânsito, na maior das cobranças, na briga mais acalorada, na discussão entre familiares.

Aprenda com o silêncio a respeitar o seu “eu”, a valorizar o ser humano que você é, a respeitar o Templo que é o seu corpo, e o Santuário que é a sua vida. 

Aprenda hoje com o silêncio, que gritar não traz respeito, que ouvir ainda é melhor que muito falar. Na natureza tudo acontece com poder e silêncio, com um silêncio poderoso; por vezes, o silêncio é confundido com fraqueza, apatia ou indiferença.

Pensa-se que a pessoa portadora dessa virtude está impedida de reclamar seus direitos e deve tolerar com passividade todos os abusos.

Acredita-se que o silêncio não combina com o poder, pois este tem-se confundido com prepotência e violência.

Sempre que a palavra poder lhe vier à mente, lembre-se do Sol que nasce e se põe em profunda quietude; move gigantescos sistemas planetários, mas penetra suavemente pela vidraça de uma janela sem a quebrar.

Acaricia as pétalas de uma rosa sem a ferir, e beija as faces de uma criança adormecida sem a acordar; vamos encontrar na natureza lições preciosas a nos dizer que o verdadeiro poder anda de mãos dadas com a quietude. 

As estrelas e galáxias descrevem as suas órbitas com estupenda velocidade pelas vias inexploradas do cosmos, mas nunca deram sinal da sua presença pelo mais leve ruído.

O oxigénio, poderoso mantenedor da vida, penetra em nossos pulmões, circula discreto pelo nosso corpo, e nem lhe notamos a presença. 

A luz, a vida e o espírito, os maiores poderes do universo, actuam com a suavidade de uma aparente ausência.

Como nos domínios da natureza, o verdadeiro poder do homem não consiste em atos de violência física.

Quando um homem conquista o verdadeiro poder, toda a antiga violência acaba em benevolência. 

A violência é sinal de fraqueza, a benevolência é indício de poder. 

Os grandes mestres sabem ser severos e rigorosos sem renegarem a mais perfeita quietude e benevolência.

Deus, que é o supremo poder, age com tamanha quietude que a maioria dos homens nem percebe a Sua acção.

Essa poderosa força, na qual todos estamos mergulhados, mantém o Universo em movimento, faz pulsar o coração dos pássaros, dos bandidos e dos homens de bem, na mais perfeita leveza. 

Até mesmo a morte chega de mansinho e, como hábil cirurgiã, rompe os laços que prendem a alma ao corpo, libertando-a do cativeiro físico.

O verdadeiro poder chega: sem ruído, sem alarde e sem violência. “Bem aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra”. “Boa Terra em teus pés, Água o bastante em tua semente, bom Vento para o teu sopro, Fogo em teu coração e muito Amor em teu ser”.

“O êxito ou o fracasso de sua vida não depende de quanta força você põe em uma tentativa, mas da persistência no que fizer.”

E em respeito a você, eu me calo, me silencio, para que você possa ouvir o seu interior que quer lhe falar, desejar-lhe uma vida vitoriosa. Desejo Paz e Silêncio para você."

Jean-Yves Leloup

segunda-feira, setembro 14, 2015

Casamento feliz

Qual o segredo para um casamento feliz?

Todo relacionamento é desafiador. Quanto mais íntimo se faz, mais dedicação nos exige.

Assim, a vida a dois, o compartilhar a nossa existência com outrem, demanda empenho e atenção.

Porém, será possível entender quais as melhores virtudes para construir um casamento feliz?

Se a paixão inicial, e logo em seguida o amor, são factores indispensáveis, haverá outros valores que necessitam permear a relação?

Pensando nisso, dois psicólogos americanos, John e Julie Gottman, fizeram um estudo com casais para entender o sucesso ou fracasso de um casamento.

Analisaram o comportamento de cento e trinta casais, como eles se relacionavam, como reagiam entre si, em atitudes corriqueiras, como cozinhar, limpar a casa, fazer as refeições.

Baseados em suas percepções, os pesquisadores classificaram os casais em dois grupos básicos.

Passados seis anos, os psicólogos voltaram a analisar os mesmos casais.

Perceberam que os pertencentes ao primeiro grupo continuavam casados e felizes.

Porém, aqueles que foram classificados no segundo grupo, ou estavam separados, ou permaneciam juntos, porém, infelizes.

Ao analisar as causas de sucesso do primeiro grupo, o casal Gottman percebeu que duas virtudes preponderavam na vida desses casais: a bondade e a generosidade.

Os psicólogos perceberam que, a longo prazo, torna-se fundamental e significativo que nas acções diárias, mesmo nas mais corriqueiras, a generosidade e a bondade estejam presentes.

Por exemplo, a esposa se atrasa para um compromisso porque despendeu um tempo maior se arrumando.

A reacção do marido poderá ser a de brigar, resmungar e reclamar que ela sempre se atrasa, que nunca consegue cumprir horários. Ou ele poderá perceber nisso um zelo e cuidado dela para se apresentar em sua companhia, de um jeito especial e da melhor forma.

Se o marido vai ao supermercado e esquece a compra de alguns itens, trazendo metade do relacionado, a esposa pode reclamar, dizer que ele não dá valor às coisas da casa, chamá-lo de distraído e descuidado. Ou ela poderá lhe agradecer por ter ido ao supermercado, e apenas refazer a lista com o que faltou.

São nos detalhes, nas pequenas observações, nas respostas às perguntas mais simples que conseguimos alimentar a relação com demonstrações de generosidade e de amor.

Como um lubrificante a facilitar o movimento das engrenagens, esses sentimentos permitem que a vida a dois ganhe profundidade e solidez.

Assim, em nome do casamento que elegemos para nós, analisemos quanto de bondade e generosidade temos para com nosso cônjuge.

Frente à resposta ríspida, utilizemo-nos da bondade da palavra suave e compreensiva.

Substituamos o julgamento severo e rígido, muitas vezes já desgastado pelo tempo, pela generosidade de quem percebe e reconhece valores em quem nos acompanha.

Pensemos nesses detalhes.

quinta-feira, setembro 03, 2015

S. Tomás de Aquino

 «Quem tropeça no caminho, por pouco que avance, sempre se aproxima da meta; quem corre fora dele, quanto mais corre mais se afasta da meta»

sexta-feira, julho 31, 2015

Apatia‏

Olhando só para o chão, percebeu apenas o movimento das sombras sem cor.
Sem coragem de olhar para o céu, deixou de ver o voo azul das borboletas.
*   *   *
Apatia é doença da alma. Congela a vontade, paralisa os movimentos, faz-nos estátuas vivas. Vivos-mortos que perdem o sentido de viver, que cedem ao automatismo dos dias, que adquirem visão monocromática de tudo e de todos. Indiferença. Os apáticos sofrem do vício da indiferença.

Acostumaram-se com as notícias ruins, as desgraças, os flagelos destruidores, e tais fatos nem mais lhes tocam o coração. Não são capazes nem de enviar bons pensamentos às vítimas.

Uma prece? Não. Prece é coisa de religioso fanático. – Dizem ou pensam.

Acostumaram-se com o jeitinho, esquecendo que tal maneira de negociar ou resolver as questões é apenas corrupção disfarçada. Acostumaram-se com as lágrimas dos outros e elas não mais os emocionam. Foram obrigados a represar suas emoções. Expressar emoções é para os fracos. – segredam. Acostumaram-se com o mal... inacreditavelmente.

*   *   *

Acostumamo-nos a olhar mais para o chão do que para o céu, esta é a verdade, e depois de um tempo nem achamos o chão tão mau assim...

Isso é gravíssimo, pois se perde a referência de algo melhor, de algo maior, e todos precisamos mirar alto para poder crescer.

A apatia nos aprisionou em estruturas de pensamentos absurdas, nos aprisionou à falta de emoções e em comportamentos robóticos insensíveis.

Ela nos fez pensar que não somos capazes de mudar nada, que tudo sempre foi assim, que a Humanidade não tem jeito e que nosso futuro é desesperador.

O apático é alguém que perde a batalha antes mesmo de enfrentá-la.
*   *   *
Elimina do teu vocabulário as frases pessimistas habituais, substituindo-as por equivalentes ideais.
Não digas: "Não posso"; "Não suporto mais"; "Desisto".

Faze uma mudança de paisagem mental e corrige-a por outras: "Tudo posso, quando quero"; "Suporto tudo quanto é para o meu bem" e "Prosseguirei ao preço do sacrifício, para a vitória que persigo".

A apatia é doença da alma, que a todos cumpre combater com as melhores disposições. Na luta competitiva da vida terrestre, não há lugar para o apático.  Receando o labor bendito ou dele fugindo, mediante mecanismos de evasão inconsciente, a criatura se deixa envenenar pela psicosfera mórbida da auto-piedade, procurando inspirar compaixão antes que despertar e motivar amor.

Reage com vigor à urdidura da apatia, do desinteresse.

Ora e vence o adversário sutil, que em ti procura alojamento, utilizando-se de justificativas falsas. A lei do trabalho é impositivo das leis naturais que promovem o progresso e fomentam a vida.

Não é por outra razão que a tradição evangélica nos informa: “Ajuda-te e o céu te ajudará”, conclamando-nos à luta contra a apatia e os seus sequazes, que se fazem conhecidos como desencanto, depressão, cansaço e equivalentes.

com base no poema Apatia, de Adélia Maria Woellner, e no cap. 35, do livro Alerta, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco

Defendam os direitos dos Animais


quinta-feira, junho 18, 2015

+ como Tu...

Estou convencido que assim comecem a surgir entre nós mais como Jesus, que o mundo acelerará de forma irretornável, para um clima crescente de paz, segurança e fraternidade entre os povos.

E não será mais preciso, para alcançar estes patamares de enorme evolução humana e civilizacional, nenhum tipo de suplicio ou enorme sacrifício. 

Esse esforço já está cumprido. Assumiu-o voluntariamente o próprio Mestre Jesus enquanto esteve cá entre nós fisicamente, no suplicio e martírio a que foi sujeito apesar de inocente e que resultou na entrega de sua própria vida pela remissão dos nossos pecados seja, pelo carma pesado que teríamos todos ainda que superar, para absorver os profundos conhecimentos das maravilhas do Pai.

Reflexão que aponta para a importância essencial para cada um de nós usar a força da intenção dirigida, do pensamento direccionado, da oração, da meditação, para que estes fluidos benevolentes e curadores sejam um balsamo renovador num mundo presentemente tão acometido de injustiças, incompreensões e intolerâncias.

Orar seja no livre método de cada um, uma responsabilidade para si, para os seus e para aqueles que quando partirmos hão-de vir.

Assim Seja!

quarta-feira, junho 17, 2015

FORQ - Limax (Batch)

Dia Litúrgico: Quarta-feira da 11ª semana do Tempo Comum

Hoje fui sujeito a uma situação corriqueira. 

Numa fila de pessoas para atendimento num estabelecimento comercial uma pessoa com quem tinha estado a conversar sobre banalidades, mas também sobre um certo teor de certo e errado, ao entrar um seu conhecido na recepção aproveitou e mesmo depois de conversar comigo, utilizando-se dum ardiloso impulso, passou à minha frente com ar de grande naturalidade. 

Eu não quis levantar escândalo e freei meus impulsos, ainda perplexo pela atitude inesperada daquele que conversando amenamente comigo, estava agora a comportar-se lamentavelmente.

Quase imediatamente outro personagem preparava-se para fazer o mesmo. Não teve hipótese, já que levantei a voz chamando atenção para aqueles que já aguardavam à sua frente para serem atendidos. 

Percebi que a primeira personagem enquanto era atendida estava envergonhada do que fizera e ainda que me olhasse tentando conquistar simpatia, eu comportei-me como se ela deixasse de existir, apesar de antes ter estado a falar com ela descontraidamente. 

Por essa altura questionava-me se no momento de se retirar, ao cumprimentarmo-nos a iria repreender. Achei que ela tinha entendido e que já bastava, deixando o tema à sua própria consciência, preferindo ignorar o assunto.

O senhor acabou saindo sorrateiramente e eu nem lhe dignei um olhar de reprovação. Apenas o ignorei. Achei que assim ainda lhe tinha poupado uma vergonha porque se viesse despedir-se ia ser repreendido com certeza absoluta.

Resumo da forma como me senti em relação ao assunto mais tarde umas horas: 

Em primeiro lugar queria ter uma atitude de tolerância e acabei alimentando uma atitude de orgulho. Depois cuidei que ninguém escutasse em voz alta a falha do senhor em questão e acabei por certificar-me que ele ficasse como que confrontado pela sua imprudência. Afinal tudo que tentei fazer para que não lesasse o meu irmão acabou por ser transformado numa espécie de refinada tortura, para que ele ficasse marcado pela sua falha.
Julgamento, orgulho, Intolerância, soberba... grande fiasco... quando aprenderei????

Mais tarde uma horas, acabo cruzando com a seguinte passagem do evangelho:

Evangelho (Mt 6,1-6.16-18): «Cuidado! não pratiqueis vossa justiça na frente dos outros, só para serdes notados. De outra forma, não recebereis recompensa do vosso Pai que está nos céus. Por isso, quando deres esmola, não mandes tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos outros.

Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Tu, porém, quando deres esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz a direita, de modo que tua esmola fique escondida. E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa. 

»Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar nas sinagogas e nas esquinas das praças, em posição de serem vistos pelos outros. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido. E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa. 

»Quando jejuardes, não fiqueis de rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para figurar aos outros que estão jejuando. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os outros não vejam que estás jejuando, mas somente teu Pai, que está no escondido. E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa».

-não consigo deixar de pensar.... que maravilhosa forma de ver a vida e suas complexas relações... que maravilhosos pensamentos... que nobreza de carácter... cada vez amo e admiro mais este maravilhoso homem, que foi Jesus de Nazaré...

terça-feira, junho 16, 2015

Dia Litúrgico: Terça-feira da 11ª semana do Tempo Comum

Evangelho (Mt 5,43-48): «Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’Ora, eu vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem! 

Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os publicanos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 

Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito».

quinta-feira, junho 11, 2015

Quando tudo parece contra nós

Qual seria o destino de toda aquela gente? As oficinas do campo de Auschwitz haviam sido fechadas. Também o barracão trinta e um, com suas quase quinhentas crianças.

O que se haveria de esperar agora? Falava-se de uma selecção que os temidos oficiais da SS realizariam. Dita estava cansada. A esperança parecia fugir de sua alma adolescente como areia fina entre dedos entreabertos.

Seu pai morrera, vítima dos trabalhos forçados, de fome e de enfermidade. Nenhum medicamento lhe fora providenciado, quando a febre começara a devorá-lo e a pneumonia lhe destroçara os pulmões.

Ela nem pudera estar perto dele para assistir seus últimos momentos. Seu corpo fora se juntar ao de tantos outros, que morriam, diariamente, no campo de extermínio.

Sua mãe parecia um farrapo humano, com os ossos rasgando a pele, tal a magreza. Piolhos, pulgas, mau cheiro, fome, muita fome. Ela não aguentava mais.

Vamos rezar. – Convidou Margit, a amiga.

Rezar? Para quem? - Explodiu Dita.

Para quem mais poderia ser senão para Deus?

A raiva tomou conta de Dita. Há muito tempo tudo aquilo estava guardado dentro dela. Como um vulcão, ela expeliu a lava da sua amargura.

Centenas de milhares de judeus rezam a Deus, desde 1939. Ele não escutou ninguém.

Talvez não tenhamos rezado o suficiente, forte o bastante para que ele nos escute.

A amiga procurava os últimos fiapos de esperança, dentro de si, buscando apoio na companheira.

Ora, Margit. Deus sabe de tudo o que fazemos e não sabe que estão matando milhares de inocentes? Não sabe que outros milhares são mantidos como prisioneiros e tratados piores do que cães? Acha mesmo que Ele não sabe?

Embora a revolta que extravasava, Dita demonstrava que tinha certeza absoluta daquele Deus, cuja existência os pais lhe haviam ensinado.

Ele era omnipresente. Omnipotente. Por que não tomava uma atitude? Por que não fazia nada? Acaso os judeus não eram Seus filhos?

Não sei, foi a resposta de Margit. Sei que não se deve questionar Deus. Podemos ir para o inferno.

Não seja ingênua, Margit. Já estamos no inferno.

*   *   *
Ante as dores superlativas que nos visitam, por vezes, a desesperança nos abraça.

É que quando chega a madrugada, e as dificuldades do dia anterior voltam a nos assaltar, parece-nos que já não existe energia para fardo tão pesado.

É o momento do desespero. A oração parece perder sua força e seu poder.

Deus nos parece alguém distante e insensível. Alguém que talvez passeie pelos jardins do Éden, esquecido dos que padecem.

Jesus, na agonia da cruz, ante as dores que O dilaceravam, legou-nos o mais extraordinário ensino. Enquanto se debatiam os condenados, ao Seu lado, Ele orava ao Pai:

Senhor, concede o Teu perdão. Eles não sabem o que fazem.

Preocupava-se com os Seus irmãos.

E, sentindo se aproximar o momento da morte, rogou:

Senhor, em Tuas mãos entrego meu Espírito.

Nenhuma revolta. Nenhum desespero. Fortaleza na prece.

Aprendamos com o Modelo e Guia, porque, nesta Terra de tanta intranquilidade, tudo se finda.

Só o Espírito é eterno, indestrutível.

Pensemos nisso.


com base no cap. Julho de 1944, do livro A bibliotecária de Auschwitz, de Antonio G. Iturbe, ed. AGIR.