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terça-feira, maio 15, 2007

ronda de 13 de maio

Reduzidos a cinco elementos já que parte da restante equipa se encontrava em peregrinação em Fátima, reunimos para mais uma ronda. Devido aos últimos acontecimentos e em resultado de uma reunião entre os elementos da RSA, ficou decidido focalizar nosso impacto sob os que verdadeiramente apresentam visíveis sinais de fome e carência. Esperamos assim, eliminar um pouco a tendência para a formação de grupos de pessoas cada vez maiores, a pedirem comida e roupa sem terem uma necessidade real. É que atrás destes se juntam outros iguais e pior ainda, afastam os verdadeiros destinatários da nossa acção. Esses sim, dão sentido à ideia de: quanto mais a necessidade, mais visível a candura e a educação da pessoa. Assim como: quanto menos a necessidade, mais o nervosismo e a agressividade latente na pessoa. E de facto temos confirmado isto nas ruas da cidade. Entre aqueles que bem vestidos se acotovelam a pedir uma peça de roupa usada para muito provavelmente ir vender em alguma feira de segunda mão, constata-se com facilidade a tendência para a zaragata e o desrespeito, mesmo para com os próprios membros da RSA, que dificilmente mantém alguma ordem. E é sobretudo esta constatação somada ao facto de outros grupos de solidariedade civil actuarem na zona em simultâneo, que decidimos estreitar ainda mais o foco da nossa objectiva. Assim, para já eliminamos três dos locais de paragem ou seja o Carregal, Aliados e Júlio Dinis. Revelaram-se estes locais autênticos pontos de mendicidade maioritariamente sem necessidades essenciais. Aqui será necessário um trabalho mais ao nível da educação, da sensibilização que propriamente ao nível dos cuidados e necessidades básicas. Este não é o mote da nossa ronda. Nós procuramos servir aqueles que se encontram no limiar da sua capacidade de se defender, aqueles que estão ou “à beira do abismo ou já transpuseram esta barreira”. Nesses queremos estar presentes corpo e alma, no sentido de ao aquecer um estômago e um corpo ter a esperança se possível, de aquecer uma alma. Esta é a nossa vocação. Desta forma reduzimos as 150 sacas de alimentos para pouco mais de metade, partindo com o objectivo de as distribuir o melhor possível. Generalizando, visitamos o casal de idosos na Sé, o Sr. António que já foi homem do mar, serralheiro, empregado têxtil, de entregas, enfim uma vida recheada de peripécias que não lhe retiraram a dignidade de um lobo solitário, os arrumadores um pouco pela cidade, fomos a Camões e por fim ao Aleixo. E para não surpreender foi em Camões entre indivíduos “bem calçados”, que se verificou uma zaragata por causa de uns sapatos, ameaças de pancadaria entre eles, motivo suficiente para depois de ver que ninguém partia cabeças, nos pormos a andar rapidamente meio aturdidos com estas pessoas que nem acarinham tão pouco algum respeito pelo que fazemos.
Na sequência do que relato, no Aleixo é exactamente o inverso. Pessoas hiper necessitadas, com fome até aos ossos, vestidas com o sujo da calçada, surgem rua acima com uma serenidade nos olhos para connosco indescritível. São gentis normalmente até entre eles, com uma conduta e uma humanidade tocante. Agradecem o simples pão como se fosse um jantar. Estes sentimos, serem aqueles que nós desejamos servir. Que apreciam genuinamente ou naturalmente, a nossa acção.
De referir no bairro do Aleixo derivado a nos deslocarmos mais cedo que o habitual, o frenesim da clientela da droga. É chocante testemunhar o género de pessoas que se deslocam ao Aleixo para comprar droga. São maioritariamente jovens em automóveis de gama alta, muito bem vestidos, passos apressados, angustiados, passam por nós rápidos e sem olhar, para aquela que será um dia por esse andar, a única refeição da noite.
Sim eles por ora passam sem parar, sem olhar sequer mas um dia, a manterem este vicio certamente já viram à procura é de pão. Que a droga leva é tudo deixando só, a alma dorida e algumas lembranças do seu abandono. E uma vez mais terminamos como iniciamos, com um circulo composto em oração magistralmente pronunciada pela Tia Ju, esta senhora que me encanta e que nos lembrou uma vez mais o fundador da RSA, o Sr. Fernando que todos sempre procuram com saudade, um homem que é uma referência de elevação espiritual, puro como uma criança, carismático e simples, entendido pelos que o amam e procuram seguir o seu exemplo. Bem-haja, bem-hajam aqueles que sem pensar em si próprios, procuram servir a seu semelhante caridosamente.
Parece duro não é verdade?... mas parece seguramente a única solução para o momento presente.

segunda-feira, abril 23, 2007

Ronda de 22 de Abril 2007

22:15 Com a equipe reforçada pela presença do Fernando, depois de termos cumprido a preparação dos sacos saímos para a rua. Avenida da Boavista, o Hélder andava sem frio. Completamente trémulo, sumo na mão a cambalear entre os carros que passavam como quem desafia um acordar violento ou um adormecer súbito, com o que lhe resta de voz das suas cordas vocais meias desfeitas pelas injecções de droga no pescoço lá nos saudava com expressão ausente. Júlio Dinis, era já tarde. Nem uma alma só. São Bento. O centro da cidade do Porto. Uma multidão, cerca de 100 pessoas dificilmente contidas numa fila que junto a um dos três carros que partiram para esta ronda, avidamente esperavam a sua vez para receber um saco. Fiquei com a missão de retirar junto com o Bernardo os sacos do carro. Como temos que fitar bem o rosto da pessoa a quem entregamos o saco, para evitar que o venha pedir duas vezes e com isso penalizar quem não recebeu, acabei por literalmente me chocar com intensidade com esta talvez centena de olhares. É deveras chocante, embater com tipos de necessidades tão diferentes de uma assentada só. Mas ainda assim são deste os que se infiltram sem necessidades especiais, os que mais me custam a “digerir”.
Refiro-me ao olhar de alguém sem necessidade, sem fome, com plena consciência que está a receber algo que a alguém com uma real necessidade vai fazer falta, que confirmo na sua expressão, no olhar, que está em confronto com a sua consciência que lá dentro se revolta e ainda assim, com o olhar de que rouba um pacote de chicletes no supermercado, estende a mão para receber um saco, com um pacote de sumo, um de leite, uma lata de salsichas, um pão um doce e um salgado. De entre todas as misérias que ofendem os sentidos, esta é a mais difícil de superar. É o jovem equipado à FPC, que chegou do jogo ainda meio eufórico, a buscar um saco destinado aos pobres e necessitados e deve ter pago umas notas de euro para entrar no jogo, se calhar deixou em casa a sua jovem família sem nada para comer…
É a miséria mais terrível… a miséria da inconsciência. A auto infligida. A nossa sociedade está infectada terrivelmente desta miséria que fere o coração e que é difícil de ser combatida. É os jovens vestidos à punk num adereço que nem fica barato, a ver se lhes sai um saco. É a falta de solidariedade entre a pessoa que se comporta desta forma, que é mais chocante. Mas é aqui também que se aprendem grandes lições, para mim a mais importante nesta ronda foi que um sem abrigo de verdade não se mistura muito com outras pessoas. Geralmente é recatado, educado e simples, ferido de verdade se assim se pode afirmar. Quanto mais difícil a sua personalidade menos se mistura com alguém. O sem abrigo de verdade, vive ou viveu de alguma forma uma experiência que o condicionou a um isolamento social. É muitas vezes caracterizado inclusive pela dificuldade em se comunicar. Bem no centro do Porto na nossa velha cidade, o maior problema passou a ser mais assistência social que sem abrigo. É gente, muita gente que necessita ser reeducada, no sentido de rever as suas prioridades na vida, de forma a conservarem as coisas mais importantes em primeiro lugar. A dignidade humana e o bom senso, sobretudo. A Ronda dos Sem Abrigo, vai repensar esta paragem e muito certamente trocá-la por outras a sua acção seja mais frutuosa. Daqui fomos à rua escura e o contraste aconteceu de imediato, na escuridão duma rua apertada e antiga, entre os traficantes que davam alertas da nossa chegada para que não nos fizessem dano, cada um dos sacos que demos foi recebido com uma gratidão sincera e entre tanta miséria de verdade não existe espaço ao fingimento. Como é estranho para mim, confirmar que se encontra mais luz num lugar escuro, pobre mas mais honesto, que num lugar cheio de luz, movimento e gente, onde a desumanidade acaba mesmo por ser maior, como em São Bento. Junto à Sé do Porto, estivemos com um casal de velhinhos, sós e juntos há muitos anos, numa pobreza e solidão enorme, me tocaram profundamente. Com uma dignidade e uma mansidão só encontrada em almas muito grandes, o espírito dos saudosos avós esteve ali presente. E ao deixá-los enquanto nos despedíamos até a uma próxima vez, nos seus olhos abandonados pela cidade que os viu nascer, sentia eu já a angustia da saudade que me causava deixá-los ali, naquela noite quais guardiães duma Sé antiga de outros Portos. Também foi a ronda dos arrumadores de carros esta ronda. Acho que se juntaram todos cada um em seu “posto de trabalho”, numa fome que já não via algum tempo. Também aqui fomos alvo duma educação que não se vê muito por parte destes jovens. Muito agradecidos, não escondiam a satisfação de alguma coisa para enganar o estômago. Rua 31 de Janeiro, entrada de um prédio sujo mesmo junto ao passeio, debaixo de um cartão que normalmente serve de colchão, sobressai a carne branca de umas coxas e ao reparar no movimento para cima e para baixo que o cartão fazia, apressamo-nos a sair dali não fossemos interromper algo importante. Rua de Camões. Esta é sobretudo uma zona onde algumas prostitutas e homossexuais passam das conhecidas casas com reputação na cidade do porto frequentadas por gente da sociedade portuense, para a rua. Quando o corpo se degrada no consumo de uma vida que nunca se conseguiu dominar, sem as boas graças dos patrocínios é na rua que se acaba doente e enfermo, esquecido e abandonado.
Também aqui cada vez mais aparece o oportunista. Aliás com a difícil conjectura económica que todos sabemos em nosso pais, cada vez mais pessoas aderem ás refeições de movimentos como o nosso, para poupar algum do dinheiro que vão necessitar para os telemóveis da próxima geração que irão querer comprar quando saírem…. Dali rumamos em direcção ao Santo António, que sem alongar muito, poderia de nomear o acontecimento de São Bento versão II, ainda mais desolador. Também aqui terá que se reavaliar a acção da RSA. Por fim, lá fomos ao Aleixo. Já estava a Bruna com sua cadeirinha de rodas “enfeitada com sacos de plástico”, com um cobertor velho e surrado a cobrir do frio da noite, só os dois totós do seu cabelo sujo de fora, encostada sozinha no passeio, com fome, com ainda mais sede. A Bruna tem paralisia nas pernas, é uma jovem rapariga lindíssima e amorosa. Seu frágil corpo já serviu muito para lhe sustentar o vício e em sua adolescência serviu a muitos que agora não a reconhecem. No Aleixo, entre os toxicodependentes, portadores de doenças infecto contagiosas muito desenvolvidas, falta de roupa, falta de higiene, falta de tudo, fico enternecido ao reparar como trocam naturalmente gestos de carinho, como trocam um pacote de bolachas ou uma peça de roupa sem inveja, como partilham o que tem para comer com alguém que chegou tarde, como se apressam sem espectáculo em sossegar uma dor, que tão bem conhecem em eles mesmos. Á luz do que me foi ensinado sobre os ensinamentos de Cristo, não estarão alguns destes desabrigados do Aleixo, com suas vidas conturbadas e dominadas pelo vicio, mais próximos de Deus que aquele que vai oferecer o Domingo à Igreja? È que uns dão até o que não tem apesar de não serem um exemplo para a comunidade, enquanto outros no seu exemplo limpo e casto, nunca se aproximaram nem na metade da porção do que poderiam dar. Que pensará, aquele que tudo vê? Quem destes, despidos das aparências dá mais? Fico sempre com a ideia, que detrás de uma multidão tem sempre o risco de arruaça.

domingo, março 11, 2007

RSA - Voluntariado

Esteve uma noite amena, sinais de uma Primavera que não tarda.
Entretanto, a quantidade de doces e salgados que nos foi oferecida para esta ronda foi abundante. Também nos ofereceram umas caixas de sumo, assim deu para acrescentar ao já usual pacote de leite mais um “mimo”.
No final tivemos as 150 sacas prontas e ainda mais duas caixas com umas saquetas onde colocamos mais um salgado e um doce para oferecer a quem necessitasse, tipo reforço.
Houve também roupa para dar, juntamente com os poucos e muito procurados cobertores.
Esta ronda correu de uma forma muito leve.
Saímos cerca das 22h00m e por volta das 24h00m já estávamos a terminar.
Deu tempo para conversar com quem nos procurou, ainda passamos na rua escura onde encontramos alguns jovens que segundo as suas próprias palavras, parecia que os sacos tinham caído do céu tal era a fome.
Fiquei sensibilizado com a aprovação imediata de que fomos alvo, por parte de alguns moradores que acorreram a ver o que se passava.
É sempre uma sensação forte e agradável, constatar como se pode ser útil à cidade que nos viu nascer com pequenos gestos de solidariedade social.

domingo, fevereiro 18, 2007

RSA - Voluntariado

O rosto sereno e colaborante dos empregados nas confeitarias onde nos deslocamos doam as sobras do dia impecavelmente arrumadas nos tabuleiros, em caixas novas de cartão.
A atitude abnegada e energética dos voluntários antes da ronda, na garagem onde se preparam os 150 sacos para essa mesma noite.
O circulo da meditação onde a alma se encontra e se debate também.
As caras novas que se encontram nas paragens velhas, desta feita 3 homens novos de leste, educados, mansos, famintos e algo vagos no olhar.
Os infiltrados sem necessidade em cada vez maior numero, que sem pudor se apresentam à refeição dos pobres.
Os apertos de mão desesperados e taciturnos, os hálitos a vinho barato e compartilhado, os mantos rotos e sujos nos vãos inexistentes de um passeio, espécie de planície de cimento.
Os rostos escondidos ou mesmo sorridentes surpreendentemente iluminados ou surpreendentemente obscurecidos.
Os cotoveladas silenciosas onde são mais de uma trintena de uma só vez alinhados em fila e ansiedade.
A revolta súbita e insana de alguém que não sabe explicar a vergonha que sente de pedir um saco, a perplexidade de não entender nem suportar o que está a sentir.
O desejo faminto de um cobertor, umas peúgas ou mesmo umas cuecas.
Uns olhos de Cristo por umas cuecas…
A revolta, a impotência para controlar a própria vida, os filhos que lhe foram retirados agradece a cantar o fado que sobe ás paredes do Santo António.
O manto de miséria que acode aos voluntários nas ruas do Aleixo, do nada chegam queimados, espancados, aleijados, sujos, com chagas, inchados, magros, mancos, trémulos, acossados, viciados, desesperados, famintos….
E a minha maior guerra é não sucumbir à indiferença.
Não esquecer que detrás dum calo insensível de pele morta e plastificada, tem sempre uma energia branca e pura, que lhe empresta o uso.
Bem-haja.
Que do fruto ainda brota o sumo.
Que da falta ainda brota saudade.
Que jamais nos esqueçamos de nossa maior grandeza…
Nossa incomparável beleza, nossa humanidade…
Enfim a capacidade de amar renovadamente a cada instante de nossa vida

quarta-feira, janeiro 10, 2007

RSA - Voluntariado

É difícil expressar em palavras o que a acção da RSA, significa para mim.
Relato o que sinto salvaguardando as opiniões dos/as colegas de ronda que naturalmente terão as suas próprias experiências. Mas não me surpreenderia não ser o único a passar por este tipo de experiência:
A ponte que liga dois extremos:
De um lado da ponte a acção dos voluntários e os próprios sem abrigo. Simples, fraterna, nobre e desinteressada. Se pudesse ser avaliada pelas imagens exteriores, veríamos um pequeno mas unido grupo de homens e mulheres de diversas idades, confraternizando com os muitos cidadãos que vivem mais ou menos permanentemente nas ruas da cidade do Porto. São vidas que se misturam entre os sacos de alimentos, as roupas e os cobertores que tentam mitigar carências maiores, que as da falta de pão. São intenções de passar alguma esperança, alguma força de vontade a estes irmãos, para que não abdiquem de sua dignidade humana em seus confrontos com as muitas atribulações que caracterizam a vida de rua. Como quem ao partilhar um gesto partilha o saber, da muitas vezes frágil fronteira que a todos a cada instante divide, entre um homem e uma fera. São conselhos sãos que nos sem abrigo procuram imediata utilidade, ainda que indirectamente a todos os habitantes da cidade sem excepção beneficiem. Afinal quem não aprecia um pouco menos de dor um pouco mais de paz, em nossas ruas. Muitas vezes passa por escutar alguns lamentos, destes muitos marginalizados. Mas também se sorri muito, que no meio de tanta dor muitas vezes nasce um sorriso puro, como uma flor.
Do outro lado da ponte os homens e mulheres que compõe a ronda dos sem abrigo. O que cada um sente no seu intimo a cada instante. Aqui relato unicamente a minha experiência. No dia em que vou fazer a ronda, quando chega a hora de deixar o conforto e segurança de meu lar, ao beijar a minha esposa e a minha pequena filha, saio para a rua encorajado pelo ânimo que estas me transmitem. Um ânimo revestido de uma aprovação serena, que ainda nos une mais fortemente.
Sinto nesses momentos em meu coração, a ternura dos nobres laços que podem envolver um núcleo familiar. E fico em gratidão com a vida. Ao chegar à cidade é o encontro com os colegas para organizar e preparar os alimentos e as roupas que vão ser distribuídas. É para mim, o reencontrar do sentimento que referi ao sair de casa, mas desta vez ao reencontrar os/as colegas de ronda. E fico uma vez mais, em gratidão com a vida. Tudo arrumado e antes de sair para as ruas, num círculo ritual e fraterno, trocamos conselhos sobre os vários procedimentos da equipe, a coordenação necessária para que todos estejam o mais possível em segurança em alguma situação que possa surgir de forma inesperada. São muitos os locais esquecidos e problemáticos que a ronda visita. Para finalizar alguém em oração curta e breve dá o mote para aquela noite. Humildemente pede a protecção, o conselho, o bom desempenho de cada um para as horas que se vão seguir. Muitas vezes é nesta altura que reparo, como me sinto afortunado por estar bem no meio destas pessoas e sentir-me estimado por elas. E fico em gratidão com a vida. Saímos para a ronda e é quando se torna mais inexplicável por palavras. Parece que cada um cumpre sempre uma função específica planeada no segredo da sua alma, ora dando ora recebendo apoio de algum lado e entre os locais que se sucedem, casos que acontecem. É nesta altura para mim que o espírito de equipa se revela de forma mais intensa. Que somos uma equipa que se protege mutuamente, que está atenta e de mente aberta para receber quem necessite de atenção. Um tipo de equipa que se confirma na acção.
Umas horas depois, mais desgastado que cansado com tantos problemas aos quais não pudemos por um ou outro motivo valer como gostaríamos, até porque no final depende sempre da vontade da pessoa o ser ajudada ou não, recolhemo-nos novamente num círculo. De forma meditativa revemos a noite e os seus casos, partilhamos as experiências e revimos modos de actuar. Por fim despedimo-nos como iniciáramos. Recitamos em conjunto uma oração pelo mundo e sobretudo por aqueles que nessa mesma noite encontramos, em situação problemática. Para que encontrem a luz suficiente para a resolução dos seus problemas. Para que este lindo planeta em que habitamos se torne cada vez mais um lugar onde se promova a saúde, o respeito de uns pelos outros, pelo ambiente do qual fazemos todos parte sem excepção ou melhor, sem exclusão. E fico em gratidão com a vida.
A RSA faz-me recordar aquela frase: Um pequeno passo na direcção certa é bem mais importante que um grande passo, na direcção errada.
Para mim, todos os voluntários de organizações que pratiquem obras similares á RSA, como referia o poeta Libanês Kahlil Gibran, estão entre os verdadeiros protectores da terra e do ambiente.
Aqui referi o outro lado da ponte.
O percurso entre as margens gostaria de considerar este preciso momento. São as pessoas maravilhosas que acompanho, que me encantam, é a vontade de estreitar as margens. É este excelente exercício filantrópico, uma preciosa forma de integração ou iniciação se assim o quiser, a uma muito mais completa noção daquilo que compõe o nosso espaço vivo diário. Aquele que afinal, é o que mais interesse tem. Um abraço a todos os/as colegas de ronda e em especial à maravilhosa “Tia Jú”, por quem eu sinto o maior respeito e admiração.
Bem Hajam todos.

terça-feira, janeiro 09, 2007

O voluntariado

Os voluntários de cariz humanitário, filantrópico, são como uma onda que não pára de crescer.
E assim acontece porque tem lugar de sobra para todos. São tantas e cada vez maiores as carências sobretudo nos centros urbanos, que tem lugar para todos. O voluntariado é um movimento imparável, advém fortalecido em tempos de perturbação e agitação social. É a altura em que cada um escolhe o campo onde se sente mais próximo do que para si próprio considera essencial. Tempo de liberdade e de amor para muitos de nós. Assim seja!

quinta-feira, novembro 30, 2006

RSA - Voluntariado

Bairro do Aleixo. 1:00/2:00 Horas da madrugada.
Frio… tem frio a subir a calçada nos passos incertos em direcção aos sacos de comida. Quem sabe uma roupita limpa, umas calças ou um cobertor.
Chegam como feras de súbito amansadas pela necessidade de uma presença que se rende.
Estamos desta feita dois grupos, partilhamos o mesmo espaço. No fundo tem dentro de cada um dos voluntários uma motivação insondável. Uma coisa de grito calado, de resistência. Mas os actores principais deste palco, o Palco do Aleixo, são estes homens e mulheres maioritariamente jovens que irrompem pela madrugada rua acima, saídos das torres como se fossem ratos a sair das fossas, do esquecimento social, como se duma ferida infectada se tratassem.
Ei-los que chegam mansos mas apressados, é que se faz tarde a qualquer instante para voltar ás torres, onde esperam horas, minutos, segundos, milionésimos de segundos uma horrenda e suja história, a ansiada chegada da mãe do esquecimento: A droga.
Aqui é rainha, com seus anónimos quase invisíveis distribuidores, que se deslocam em velozes viaturas de alta gama. Aqui se confirma que são os sem abrigo da cidade os eleitos candidatos à toxicodependência. Maravilha para os traficantes. É que é gente altamente necessitada, gente da qual a sociedade já não pede muitas contas, gente que passa despercebida pelo desprezo que causa aos transeuntes e ás autoridades, que maravilha… gente pronta para entrar na dependência, até traficar se assim for necessário, gente com problemas psicológicos, problemas de saúde graves, problemas familiares, enfim de toda a espécie.
São muitos destes sem abrigo as vítimas escolhidas pelas redes de traficantes que operam no Aleixo sob a calada da noite, sob o consentimento hipócrita das autoridades ou a sua competência insuficiente para controlar o tráfico. Não tenho duvida que das ruas do Bairro do Aleixo já se passou de uma situação de sem abrigo para uma situação de foco de doença, de desumanidade a um nível do incompreensível.
Pobre cidade onde nasci, quando irão os nobres que te governam olhar para ti como um todo e deixar de dar tanta importância ao estado das fachadas?