domingo, março 26, 2023

Ninguém deveria receber esta medalha

Marilyn Wills deixou sua mesa e foi para a sala de conferências, naquela manhã. Enquanto pensava em como seria demorada a reunião, houve uma grande explosão, que atingiu a parede atrás dela. Ela olhou para cima e viu uma bola de fogo.

A força da explosão a jogou do outro lado da sala. Havia fumaça. Pessoas gritavam. De joelhos, gatinhou, procurando chegar na porta mais próxima. Estava muito quente. Isso significava fogo do outro lado. Então, com os joelhos ensanguentados, foi rastejando através do fumo, para o outro lado, com a manga do suéter na boca, para respirar. Alguém agarrou a parte de trás de sua calça. Era uma mulher que trabalhava em seu escritório.

A tenente-coronel Wills ofereceu a outra manga do suéter para ela. Depois para um soldado e outro oficial.

Ela começou a rezar: Senhor, me tire daqui.

Lembrou das duas filhas. Não quero morrer, Senhor.

Viu um pequeno raio de luz e rastejou para lá.

Um soldado atirou uma impressora ou algo parecido contra aquela janela. Sem resultado. As janelas do Pentágono são feitas para não serem quebradas. Alguém arrancou freneticamente a moldura da janela. E a corajosa mulher foi ajudando os companheiros a sair. Quando finalmente ela saiu, perdeu a consciência e acordou dois dias depois no hospital. Inalara muito fumo e apresentava queimaduras.

Foi presenteada com a Medalha do Soldado, por seu heroísmo, durante esse ataque de 11 de setembro de 2001. Pelos ferimentos sofridos, ela recebeu, mais tarde, o Coração Púrpura, condecoração oferecida a soldados feridos ou mortos, durante o serviço militar. Numa entrevista disse a corajosa mulher: Ninguém deveria receber um Coração Púrpura.

Imaginamos porque ela teria assim se expressado. E nos demos conta: ninguém deveria ser ferido ou morto em combate. Isso significaria abolir a guerra, os conflitos armados, as ações terroristas. Isso significaria colocar em prática o Amai-vos uns aos outros. Perdoai os vossos inimigos.

Lições que atravessaram milênios mas ainda não alcançaram os nossos corações, porque não aderimos a essas convocações. Em plena transição planetária, enquanto as ciências e as artes encantam sempre mais o mundo, continuamos a nos agredir. Agressões no estreito círculo familiar, agressões na escola, no trabalho.

Parece que não aprendemos que a violência não é má somente quando nos atinge ou a quem amamos. Então, erguemos a bandeira branca, gritando por paz.

Mas a paz começa em nós, em nossa intimidade, sufocando o orgulho, a sede de poder, de mando e comando. Aprendei de mim, disse o Sábio Galileu, que sou manso e humilde de coração e encontrareis repouso para as vossas almas.

A tenente-coronel retornou ao trabalho, apenas onze dias depois dos ferimentos sofridos. Manteiga de cacau nas cicatrizes, confiança em Deus e vontade de auxiliar companheiros e famílias dos mortos a fizeram superar a grave crise. Tudo servindo-se da sua compaixão e do mestrado em aconselhamento psicológico.

Ela acredita que a superação ao ataque é difícil para todos.

Porém, agradece por ter sobrevivido e poder auxiliar.

Uma bela lição.

terça-feira, janeiro 31, 2023

Omrram

"Estamos a chegar ao fim da era dos Peixes para entrarmos na do Aquário, na qual ocorrerão grandes mudanças. Todavia, não se deve crer que toda a humanidade vai transformar-se subitamente. O que muda para todos são as possibilidades.

Do Aquário afluem correntes novas, mas só aqueles que se esforçarem por se harmonizar com essas correntes é que se transformarão. O Céu enviar-nos-á ondas, mas não nos imporá a sabedoria. Estamos a entrar na época do Aquário, mas aqueles que nada fizerem para beneficiar das suas influências, nada receberão. Por todo o lado se ouve dizer: «A era do Aquário, a era do Aquário...». Muito bem! Mas, se quereis entrar verdadeiramente na era do Aquário, deveis preparar-vos para aceitar as novas ideias que ela traz: as ideias de fraternidade, de universalidade."

"Se quiserdes que o Céu se aperceba da vossa existência, que ele comece a apoiar-vos, a ajudar-vos, devereis tornar-vos ricos. «Mas como é que havemos de tornar-nos ricos?», perguntareis. Ah! Tereis de trabalhar para adquirir ouro. No simbolismo iniciático, o ouro representa a inteligência, a sabedoria. Com esse ouro, compram-se qualidades e virtudes, que se manifestam por projeções de luzes e de cores. Atraídas por esse brilho que avistam de longe, as entidades celestes aproximam-se. Portanto, para atrairmos a atenção de todas as criaturas angélicas que podem ocupar-se de nós, temos de ser ricos. Quando tiverdes obtido a sua amizade e a sua proteção, elas encarregar-se-ão de vos dar tudo aquilo de que necessitais. "

quinta-feira, janeiro 05, 2023

A CHAVE ESSENCIAL para resolver os problemas da existência

Parte do Cap. XIII - A Individualidade repara os desequilíbrios provocados pela personalidade - Págs. 157 a 160

Portanto, durante o quinto exercício de ginástica, podeis aperceber-vos de que, quando as pernas se deslocam, a metade superior do corpo não fica rígida, e é isso que vos mantém em equilíbrio. Há tantas lições que podemos tirar daqui! Mas, na vida, os humanos não

estão habituados a ver verdadeiramente as coisas, observam-nas sem as ver, não captam o seu sentido profundo, classificam-nas numa gaveta e continuam na sua vida vulgar. Tomemos o caso de um marido que quer introduzir alterações na sua vida, nas suas relações com a mulher ou com os filhos: antes de se decidir, ele deve consultar a natureza superior, senão corre o risco de provocar muitos transtornos, que não tinha previsto. Tenho visto muitas pessoas tomarem decisões sem consultarem ninguém, sem preverem nada, sem estudarem que remédios aplicar para evitar tragédias!

Sempre que se decide uma mudança sem prever as suas consequências, ocorrem repercussões lamentáveis. Tudo reside na capacidade de previsão.

Uma pequenina inovação num dado domínio acarreta, por vezes, alterações extraordinárias em todos os outros: económico, político, científico, técnico, religioso, etc. Basta tomarmos como exemplo o automóvel. Todos os domínios da vida foram completamente transformados com a sua invenção: não só o ritmo da vida quotidiana, mas também as serviços, os negócios, o direito, o trabalho e até as férias; para não falar da higiene coletiva, com a questão da poluição das cidades. Também no domínio da saúde, penso que numerosas doenças do coração ou certas anomalias psíquicas se devem ao automóvel, embora as pessoas não se apercebam disso. E que mudanças houve nos lares e nas famílias!... Por vezes, até um casamento depende de um automóvel: ou não se compra nenhum... ou compram-se dois! E quantas ligações ou ruturas ocorrem porque se tem esta ou aquela marca de automóvel!...

O que é, então, a personalidade? É o movimento que se produz na natureza inferior. Por isso, se o homem não apela à individualidade para preservar o equilíbrio, é vítima de toda a espécie de acidentes e de infelicidades. E é o que acontece todos os dias. Vê-se cada vez mais pessoas desequilibradas, desorientadas, porque deram uma prioridade absoluta à natureza inferior, aos prazeres, aos caprichos, aos apetites, às cobiças, e depois veem-se envolvidas em aborrecimentos incríveis. Um homem instala-se num restaurante e manda vir os pratos mais caros sem ver os preços. No fim, quando lhe trazem a conta, é uma soma astronómica! Como ele não tem com que pagar, levam-no para a esquadra da polícia! É esta – simbolicamente – a situação daqueles que só escutam a sua personalidade.

Caros irmãos e irmãs, se aceitardes ter em consideração estas grandes verdades, escapareis a muitos aborrecimentos. Percebereis em que situação vos encontrais, em que é que vos enganastes e como, doravante, podeis ver com clareza e refazer a vossa existência. Isto vale milhões! Mas, infelizmente, entre os três ou quatro conselhos catastróficos que a personalidade vos dá, está o de vos agarrardes firmemente às vossas preocupações e aos vossos problemas, mesmo quando vindes aqui, ao Paraíso. E para que é que ela vos aconselha isso? Para vos impedir de aprender, porque ela sabe que, quando houver luz em vós, será obrigada a zarpar e não tem interesse em que o homem saia da sua ignorância. Há tantos de vós que eu vejo chegar aqui com os seus fardos, os seus pesos! Eu digo-lhes: «Deixai-os à porta! Entrai, aprendei todas estas verdades, e depois, quando fordes embora, pegai neles novamente, se isso vos dá prazer.» Mas não, eles agarram-se aos seus fardos, não querem separar-se deles de forma nenhuma! E é por isso que alguns – eu vejo bem isso – nunca poderão progredir. E nem sequer se apercebem de que é a personalidade que os influencia. Mas atenção, ela tem outras manigâncias, que ainda não conheceis... Por exemplo, recorre também a esta linguagem:

«Meu velho, tu és pó e em pó te tornarás. Então, que ideia é a tua?

Deves ser sensato, razoável, e agir em conformidade com tudo o que é aceite pela maioria. Não há outro caminho.» Portanto, ela convence os homens de que eles não podem sair da sua mediocridade. E sabeis como é que eles reagem?... Como uma galinha hipnotizada: traçaram à volta dela um círculo de giz para lhe fazer crer que não pode sair dali, e ela não sai. O homem é, na verdade, como uma destas galinhas; a personalidade está sempre a repetir-lhe: «Tu és limitado, és mortal, não deves ir mais longe. Deves reduzir as tuas ambições, permanecer dentro dos teus limites...», e então ele, coitado, fica enfeitiçado, não consegue avançar... Até que, finalmente, chega a individualidade, que lhe diz: «Mas isso é um simples risco de giz! Tu és livre, podes passar, avança!». Ele experimenta... e apercebe-se de que é verdade. Deveis escutar a individualidade, pois ela não vos impõe limites, encoraja-vos sempre: «Avança, tu és capaz, tens força, podes ir até ao infinito!»

Portanto, por hoje, fixai estas duas armadilhas da personalidade e, de agora em diante, não vos deixeis influenciar quando fordes assaltados por preocupações e receios. Isso pode acontecer-vos mesmo estando vós nesta Escola Divina, mas a vossa atenção não deve concentrar-se nesses estados negativos; senão, como quereis que o lado divino se infiltre em vós? Muitas vezes, as pessoas vêm aqui e não compreendem nada, quando é tudo tão fácil de compreender! Elas barram o seu próprio caminho. É preciso instruir os humanos para que eles deixem de se sentir continuamente limitados.

Posso revelar-vos ainda muitas coisas sobre a personalidade, as suas manigâncias, as suas artimanhas, os seus ardis, nos quais caís todos os dias por falta de conhecimento. Confiaram-me precisamente este papel de vos esclarecer sobre a realidade das coisas para vos ajudar a fazer grandes progressos; mas vós ficais agarrados aos vossos velhos preconceitos. Se eu não conseguir ajudar-vos com a luz deste Ensinamento, quem vos ajudará? Direis: «Deus nosso Senhor.» Está bem, mas ficai a saber que Deus nosso Senhor não se ocupa muito destes detalhes e tem mais que fazer do que pensar em cada um de nós. Por isso, Ele deixa-nos um pouco e confia-nos a outros, seus servidores, que nós devemos escutar. E, se não os escutarmos, que quereis que Ele faça? Sim, pensai em todas as guerras, em todas as doenças, em todos os acidentes que ocorrem... Porque é que o Senhor ainda não veio livrar-nos disto? Eu não quero dizer que Ele não nos ajuda. Não! Mas o que pode Ele fazer se nós estivermos fechados?

Tomai como exemplo o Sol: ele é muito poderoso, faz girar todos os planetas, é ele que os impele e os vivifica. No entanto, se não abrirdes a cortina do vosso quarto, apesar de toda a sua potência, ele não consegue entrar. Muitas vezes, as pessoas deixam a cortina corrida e dizem: «Entra, entra, meu caro Sol, estou a convidar-te.» E ele responde: «Não posso. – Porquê? – A cortina!»

Então, aqueles que me compreenderam abrirão a cortina, o Sol entrará e a luz inundá-los-á. O Sol é um símbolo do Senhor. Claro que o Senhor é omnipotente, Ele faz mover todo o Universo, mas, quando se trata de abrir uma cortina, Ele não consegue, cabe-nos a nós fazê-lo para que Ele entre.

Há pessoas muito cristãs, muito crentes, que se entregam sempre nas mãos de Deus. Mas, então, porque é que Ele as deixa estar constantemente em apuros? Porque elas não sabem fazer o que é necessário para atrair as bênçãos. Elas pensam que basta lançar-lhe um engodo, tal como se convida para jantar uma personalidade de alto nível para depois se conseguir obter, por seu intermédio, uma autorização ou um favor. Muitas pessoas pensam que podem agir do mesmo modo com o Senhor. Não podem convidá-LO para jantar, mas prometem que Lhe acenderão uma vela. Como se se comprasse o Senhor com uma vela! Podemos obter os seus favores, sim, mas de outra maneira: é preciso conhecer a sua natureza, conseguir descobrir os seus gostos (porque é que o Senhor não haveria de ter certos gostos?) e conseguir agradar-Lhe. Então, Ele atenderá imediatamente os vossos pedidos.

Eu conheço um dos seus gostos. Ele aprecia imenso uma qualidade, que é o reconhecimento: perante um ser reconhecido, Ele cede imediatamente. É como um pai; um pai não pede nada ao seu filho, dá-lhe tudo sem esperar qualquer retribuição, mas há uma coisa que o torna feliz: é simplesmente que o filho reconheça a sua bondade e a sua generosidade; senão, embora não chegue ao ponto de ficar furioso, sente-se um pouco contrariado. O Senhor é assim: Ele não necessita de nada, tem tudo, mas gosta de ver que os seus filhos reconhecem que Ele é um bom pai.

E eu conheço ainda um outro gosto do Senhor: Ele gosta que se aja de maneira impessoal. Quando um ser Lhe dá tudo e se consagra a Ele, dizendo: «Senhor, tudo o que eu possuo Te pertence; dispõe disso conforme entenderes!», o Senhor capitula. Mas, se O ameaçardes de que não voltareis à igreja se Ele não fizer com que a vossa mulher morra para poderdes casar com outra... Estais admirados? Se soubésseis quantas orações deste género são recebidas no Céu! «Senhor, faz com que o meu marido morra para eu poder casar com o meu amante.» Pois bem, o Céu nem sequer os ouve. Há muitos, muitos, que pedem dinheiro, carros, bens materiais, e então, lá em cima, eles dizem (eu ouvi-os!): «Ora esta! Só há pedidos interesseiros! Nós estamos sobrecarregados, extenuados, com todas estas cartas que pedem dinheiro, prazeres, mulheres, filhos, diplomas... Vão ter de esperar, pois não podemos examinar todo este correio.» Mas, quando eles encontram algum pedido para servir o Senhor… Ah, é tão raro haver uma carta assim, que eles ficam logo maravilhados e apressam-se a satisfazê-lo.

Como vedes, eu estou bem informado! Se não acreditais em mim, ide verificar. Vereis que eles vos dirão: «Nós nunca satisfazemos os pedidos interesseiros, porque estamos absolutamente invadidos por papelada desse tipo.» Com efeito, o que são os pensamentos?

Eles também são cartas... Mas não podemos esquecer-nos de pôr um selo, senão não somos atendidos. E o selo, claro, é simbólico!

Cabe-vos a vós descobrir que selo é esse.

Le Bonfin, 8 de agosto de 1972



terça-feira, dezembro 13, 2022

Tempos do mundo, tempo de Deus

Sem dúvida, há na Terra a mais variada gama de pessoas, abraçando ideias, propostas e objetivos diferenciados. Sintonizamos, cada um de nós, em um  tempo próprio, coerente com os valores e ideais que agasalhamos na intimidade com uns ou com outros.

Há cientistas aplicando seu intelecto, capacidades e recursos, a fim de desenvolver aparatos bélicos e armas de destruição em massa. Ao mesmo tempo, encontramos outros que se aplicam no desenvolvimento de vacinas, na busca da cura de doenças.

Há filósofos e escritores que, através de seus textos, provocam a discórdia, a desavença, fomentam os antagonismos, exacerbam os preconceitos. Porém, há outros que utilizam sua inspiração e imaginação para propor reflexões oportunas, trazendo compreensão, empatia e entendimento mútuo em seus textos e falas.

Encontramos líderes políticos desvirtuados em suas obrigações públicas, preocupados apenas com interesses mesquinhos e enriquecimento próprio. No entanto, encontramos, também, aqueles que se servem do cargo político para concretizar ideais pelo bem comum, servindo à população com dignidade e honra.

Cada um na exata sintonia do seu próprio tempo. Outros, ainda, sintonizam apenas o tempo do mundo, do imediato, do agora. Creem que devem se servir do mundo a fim de atingir seus ideais egoístas e exclusivos. Muito embora carreguem um cabedal intelectual respeitável, trazem no seu íntimo uma visão estreita da vida e do mundo.

Felizmente, existem aqueles que sintonizam com o tempo de Deus. Esses produzem e oferecem ao mundo valores nobres, que vencem os interesses imediatistas. Conseguem perceber que viver no mundo é doar-se e contribuir para que a vida seja melhor e mais justa.


Cada um de nós tem a oportunidade de escolher com que tempo quer sintonizar. Importante identificarmos em qual desses tempos nos colocamos profissionalmente. Agimos de maneira a sempre tirar vantagens e ganhos, não importando como, ou entendemos que o certo e o justo devem prevalecer em nossas ações?

Será que educamos nossos filhos para serem vencedores, campeões, os melhores a qualquer preço? Ou, ao educá-los, nos preocupamos em falar de empatia, respeito, que se sensibilizem com as dores e carências alheias, entendendo que esses valores são eternos e compatíveis com o tempo de Deus?

No trato com nossos vizinhos, no trânsito, no transporte público, como temos nos comportado? Somos guiados pela indiferença, pelo descomprometimento com o coletivo, com as regras e leis postas para a ordem geral? Ou entendemos que viver coletivamente é obedecer regras, leis, sabendo que nosso direito deve respeitar os limites do direito do outro?

Importante refletirmos sobre o tempo em que situamos nosso coração. Embora tenhamos compromissos e obrigações com o tempo do mundo e com as necessidades imediatas, partiremos daqui, algum dia. E então, nos restará apenas aquilo que investimos no tempo de Deus, que transcende as preocupações imediatas e valem pelo todo.

pelo Espírito Camilo, psicografia de Raul Teixeira, ed. Fráter

terça-feira, novembro 29, 2022

a voz interior

"Se estivésseis mais atentos, se tivésseis maior discernimento, sentiríeis que, antes de cada empreendimento importante (uma viagem, um trabalho, uma decisão a tomar), há uma voz interior que vos aconselha. Mas vós não prestais atenção, porque preferis a algazarra e as tempestades. Para que escutásseis o ser que vos fala, era preciso que ele fizesse muito barulho. Como ele fala baixinho, não o ouvis.

No entanto, deveis saber que, quando os seres superiores vos falam, apenas vos dizem algumas palavras numa voz quase imperceptível. Quando, por vossa culpa, vos acontece alguma infelicidade, por vezes dizeis: «Sim, claro, havia qualquer coisa que me avisava, mas tão baixinho, tão baixinho...» Não ouvistes porque preferistes seguir as vozes que vos falavam muito e muito alto, para vos induzirem em erro."

sexta-feira, novembro 25, 2022

Fundadores de reinos

Existiu na Mesopotâmia, um reino. Localizado em rota estratégica, era um importante e próspero lugar, centro de comércio e comunicações. Chamava-se Mari e era diferente de todos os demais reinos da Antiguidade. Seu rei não usava espada. Ao contrário, ele estendia a mão em sinal de bênção e paz. Um estranho mundo, com certeza, onde predominava o amor e a bondade, em meio aos ferozes domínios que o cercavam. 

Mais impressionante do que esse reino, que foi destruído em 1742 a.C., um outro foi fundado, mais justo e mais fascinante. Seu fundador foi um jovem carpinteiro. Ele o proclamou num sábado, numa cidade quase insignificante, chamada Nazaré. Naquele dia, judeus ansiosos pela salvação de Israel ocupavam a sinagoga. O Carpinteiro passou entre eles e se sentou.

Sua túnica brilhava, causando assombro entre os presentes. Como podia brilhar tanto? Quando lhe permitiram falar, levantou-se, tomou nas mãos o rolo da Torá e o abriu, nos escritos de Isaías. Com voz serena, leu:

O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Enviou-me para proclamar a libertação dos cativos e a restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e apregoar o ano aceitável ao senhor.

Concluindo a leitura, fechou o livro, e tornou a se sentar. Ele estendeu o olhar por todos os presentes, e afirmou:

Hoje se cumprem estas palavras do profeta.

De início, houve um grande silêncio. Depois, se manifestaram alguns gestos de impaciência. Os protestos se fizeram mais fortes, abafando a voz calma, que falava de um reino de amor e de justiça. A multidão avançou para Ele, O agarrou e arrastou para fora. Levaram-nO para o alto de um monte, desejando precipitá-lO dali para baixo, entre rochas pontiagudas e muitas pedras. Ele, no entanto, desembaraçou-se, tranquilamente, daqueles punhos de ferro e desceu a encosta, rumo à cidade. E foi para outras bandas pregar o Seu reino.

*   *   *

Um reino. Quem pode fundar um reino?

Em verdade, qualquer um de nós pode fundar um reino porque cada homem tem o poder de criar o que quiser. O reino terá as características que desejarmos. Pode ser um reino de guerra ou de paz, de amor ou de ódio, como o fizermos. Por isso, ainda hoje, na Terra, se multiplicam os reinos da mentira, da violência, da maldade, da subjugação do outro. Podemos fundar o reino da descrença, um reino árido, estreito e seco. Um reino sem luz, que não consegue estabelecer fronteiras muito além de si mesmo. Ou o reino da injustiça, da ganância, um reino de intrigas e abusos de toda ordem. No entanto, podemos aderir ao reino proclamado há dois mil anos e fundar, onde nos encontrarmos, o nosso reino. Um reino de paciência, que suporta as tolices dos demais e apenas esclarece, desejando fazer luz. Um reino de amor, que ampara o próximo, que admira a natureza e a protege, que zela pelo bem-estar do outro. Um reino de concórdia, de entendimento, o reino de Deus. O local, todos o temos, enorme, inigualável, o nosso coração

sábado, novembro 05, 2022

Antes de mergulhar no corpo

Antes de mergulhar no corpo de carne, para uma nova encarnação, você fez alguns pedidos. Rogou aos benfeitores do seu destino as oportunidades de crescimento mediante a redenção pessoal.

Após meditação necessária e aconselhamento valoroso, reconheceu as suas principais deficiências, entendendo a necessidade de programas iluminativos na nova prova terrena. Por mais que você possa se surpreender agora, naqueles momentos preparatórios, suplicou pela presença da aflição, vez que outra; da enfermidade, periodicamente; dos testemunhos morais frequentes, para que a sua consciência lembrasse do quanto é frágil a vida física. Você está mergulhado num mundo que busca o prazer a todo custo e que tem medo da dor. Porém, naqueles momentos que antecederam a sua vinda, você entendia o quanto a dor é professora eficiente e necessária. Em algum momento, inclusive, enquanto tudo buscava planejar, os seus mentores chegaram a aconselhar que dispensasse algumas cargas, que poderiam ser difíceis demais. No entanto, você, cheio de boa vontade, de coragem exemplar, antevendo o futuro feliz que o aguardaria, após a vitória, se manteve firme nas propostas iniciais de se redimir de muitas coisas.

Assim, você foi devidamente preparado. Teve a contribuição de Espíritos nobres, que lhe trouxeram palavras de incentivo e lhe ofereceriam ajuda, a qualquer momento, durante a vida na Terra. Alguns deles se propuseram a vir como pais. Outros, como amigos, companheiros de lutas. Alguns, permanecendo na pátria espiritual, para a inspiração de bons pensamentos, consolo em instantes graves, nunca o deixando sozinho. Então, você mergulhou na névoa carnal, entre alegrias e promessas, como um grande candidato ao triunfo.

E aqui está você, instalado na escola terrestre, enfrentando os mil desafios que sabia iria encontrar. Está, como se diz, no olho do furacão, tendo que lidar com inúmeras questões da vida, da sua e da dos seus, pois outras tantas dificuldades estão na vida de relação dos que estão à sua volta. Pois bem, tudo faz parte do que foi anteriormente traçado. Aí estão todas as matérias das variadas provas da escola terrena.

Respire fundo e não reclame de forma alguma. Siga adiante, recordando que tudo faz parte do planejamento prévio que fez. E que você tem todas as condições de sair vitorioso. Lembre de quantos participaram dessa sua investida de luz, dos que planejaram com você e dos que estão aqui, ao seu lado, contribuindo para que tudo dê certo. Não deixe de contar com os amigos espirituais, sempre dispostos a auxiliar, com conselhos, consolo. Ou até mesmo para secar suas lágrimas, nos instantes mais graves.

Pela meditação, pela oração e pelo estudo, conecte-se a eles, sintonize com a lucidez dos dias que antecederam a sua vinda a este planeta. Retome a coragem, retome a força de vontade, por mais machucado que esteja. Feridas e arranhões se curam com o tempo, e passam a ser traços luminosos em nossa história imortal.


segunda-feira, outubro 17, 2022

mundo divino...

No estágio de vida material, o estágio de vida predominante na condição humana, nós vivemos com uma ação/noção muito limitada e condicionada, sobre o trajeto das nossas ações, mais vivendo sujeitos às leis do karma, consequentemente mais envolvidos nos confrontos de suas dinâmicas, mais agindo em consequência destes confrontos, sem grande previsão dos acontecimentos, que qualquer outra coisa. Todas as mudanças de paradigma, seja em que área de nossa vida for são extremamente difíceis, porque não se tem um vislumbre lucido de sua ação, sendo que grande parte dessas aprendizagens são creditadas por resultados muitas vezes laterais e não diretos. E desta dinâmica… desde que se tem memória e segundo algumas revelações até em próximas vidas. Basicamente evoluímos como resultado de interações sem uma consciência dinâmica da ação direta, mais por ação da reflexão e ponderação da relação causa e seu efeito. (observação estática)

No reino dos anjos, onde a presença da dinâmica espiritual ganha uma consciência superior às limitações da matéria, inicia-se a possibilidade de um vislumbre mais completo destas dinâmicas de um ponto de vista de rumo, ou seja, de onde se vem para onde se vai. A razão direta das ações, o porquê de cada coisa na hora e com isso o reforço do autoconhecimento aumentado enormemente. O autoconhecimento e seu envolvimento evolutivo ultrapassa o conhecimento da mecânica do karma e do darma, consequentemente ainda que não possa alterar o curso das dinâmicas de forma direta, o observador tem uma experiência mais completa da origem dos acontecimentos e das consequências de suas ações. É capacitada a consciência a auxiliar o candidato a compreender os processos e a ultrapassar os obstáculos, de forma muito mais assertiva e previsível. Daí a tradição do hábito de muitas culturas em muitas eras, em solicitar auxílio na ajuda de tomada de decisão em momentos decisivos às entidades angélicas, em que um conselho de maior sabedoria haveria de concorrer para o favorecimento de um melhor resultado, de uma maior sabedoria e a salvaguarda de uma maior justiça.

Na dimensão Divina, hierarquicamente acima do mundo angélico, somente no Reino de Deus ou no mundo supra angélico, existe o poder de alterar o curso destes acontecimentos de forma direta e por iniciativa própria. Somente a consciência Divina ou forças por ela emantadas se entenderem que é necessário a obtenção de determinados fenómenos de forma a obter determinados resultados, tem força hierárquica sobre a natureza dos mundos materiais e imateriais, alterando-lhes os eventos de forma que entender apropriada, sobrepondo-se à natureza e às leis da Roda de Samsara.

É razoável depreender que aos humanos não é de menor importância a consideração destas forças de grandeza para si incompreensíveis, e que desde que à registos na história, sempre souberam cultuar com respeito e temor. 

Pensamento do dia

 "Certas pessoas vêm pedir-me conselhos para a escolha de uma profissão, pois têm hesitações: não sabem se devem seguir uma via em que ganhariam muito dinheiro ou escolher uma atividade menos lucrativa, mas que lhes deixaria mais tempo disponível para fazerem outra coisa... Como instrutor, eu não tenho de dizer a alguém que deve fazer isto ou aquilo, mas apenas explicar-lhe as consequências das suas escolhas; depois, a decisão é da pessoa. Eis, então, o que eu respondo: «Querer ganhar muito dinheiro não é mau, tudo depende do que se quiser realizar. Se o seu ideal for aquilo a que habitualmente se chama “vencer na vida”, isto é, ter poder, influência, pois bem, ganhe muito dinheiro! Mas se tiver por ideal progredir na via da vida interior, não necessitará de muito dinheiro, mas sobretudo de liberdade, de tempo para atividades espirituais. Agora, a escolha é sua!»"

terça-feira, outubro 04, 2022

O verdadeiro saber

"Se lerdes sobre a vida dos Mestres e dos Iniciados, vereis que todos eles passaram por provas terríveis. Alguns compreendiam o significado desses sofrimentos e não se revoltavam, não desanimavam, pois sabiam que, graças a eles, se tornariam divindades. Mas outros, que ainda não eram tão esclarecidos, ficavam abatidos e, por vezes, até se revoltavam. Não compreendiam por que razão o Céu era tão cruel. Tinham sacrificado tudo por ele e ele não os recompensava!...

Muitas vezes, o que falta aos espiritualistas é o verdadeiro saber. Eles pensam que, só porque consagraram a vida a Deus, passarão a ter rios de leite e mel, a caminhar sobre pétalas de rosas, a receber coroas. É verdade que na Bíblia se encontram tais promessas, e também é verdade que tudo isso sucederá... Mas apenas quando eles tiverem passado por todas as provações! Até lá, aqueles que possuem a verdadeira luz têm de aprender a utilizar, para a sua própria evolução, tudo o que lhes acontece. "

quarta-feira, setembro 28, 2022

"Acumulai Tesouros"

«Não acumuleis tesouros na terra, onde os vermes e a ferrugem corroem e os ladrões destroem as paredes para roubar. Mas acumulai tesouros no céu, onde os vermes e a ferrugem não corroem nem os ladrões destroem as paredes para roubar. Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.»

«Ninguém poderá servir dois senhores. Porque ou odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir Deus e Mammon.»

São Mateus, 6: 19-20, 24

Esta passagem do Evangelho de São Mateus deve ser comparada com o capítulo 16 de São Lucas sobre o administrador infiel. Primeiro, porque um e outro tratam de maneira idêntica a questão das riquezas; depois, porque ambos são seguidos de um comentário sobre os dois senhores: «Ninguém pode servir dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir Deus e Mammon.»

«Não acumuleis tesouros na terra, onde os vermes e a ferrugem corroem e os ladrões destroem as paredes para roubar; mas acumulai tesouros no céu…» 

Para Jesus existem, pois, duas espécies de bancos muito diferentes: os bancos da terra e os bancos do céu, que têm, evidentemente, empregados muito diferentes uns dos outros. Mas é o próprio homem que representa estes dois bancos e eles funcionam em simultâneo num edifício comum: o seu foro íntimo. Porém, na realidade estes dois bancos são sucursais de dois grandes bancos cósmicos que os alimentam.

Estais admirados por eu utilizar tais comparações para interpretar o Evangelho?... É porque a vida do nosso mundo visível é construída a partir do modelo das realidades invisíveis. O que está em baixo é o reflexo do que está em cima; digo bem, um reflexo, porque nem a beleza nem a luz do mundo invisível podem ser encontradas na terra, mas existem correspondências que permitem comparar os dois mundos e compreender o que se encontra no mundo do Alto graças ao que vemos no mundo de baixo, o nosso mundo. O que são, pois, estes dois bancos, o da terra e o do Céu? São a personalidade e a individualidade, de que já vos falei.

Pode-se dizer que um banco terrestre se compõe, em geral, de três serviços diferente. O primeiro serviço é o dos depósitos; são os cofres-fortes, onde se põe as reservas em segurança. O segundo serviço ocupa-se das trocas de capitais, dos empréstimos. O terceiro interessa-se pelas operações financeiras, pelas especulações. Pois bem, encontramos exatamente estes três serviços na estrutura da personalidade. Os cofres-fortes correspondem às reservas do corpo físico, o serviço de trocas de capitais corresponde aos sentimentos, ao plano astral, ao mundo do coração, que estabelece continuamente relações baseadas no interesse.  O serviço das especulações corresponde ao plano mental, ao intelecto, que só pensa em fazer cálculos nas costas dos outros, imaginando sempre as vantagens que pode tirar da sua ruína, atual ou futura. O banco terrestre enriquece sempre à custa dos outros, procurando sempre convencer o mundo inteiro de que o que faz, sente e pensa é inspirado somente pelo amor e pelo respeito ao próximo.

Há pouco, eu dizia-vos que cada frase de Jesus é plena de significado. Vamos ver o que significa: «Acumulai tesouros no céu, onde os vermes e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não destroem as paredes para roubar», prestando atenção às três palavras “ferrugem”, “vermes” e “ladrões”.

Comecemos pela ferrugem. Sempre se disse que os alquimistas procuravam a pedra filosofal para transformar os metais em ouro. Porquê em ouro? Porque, dos metais, só o ouro não se oxida e não é atacado pela água, pelo ar e pelos ácidos; ele só é solúvel numa mistura de ácido nítrico e ácido clorídrico, chamada água-régia. O ferro, pelo contrário, é conhecido por se oxidar com muita facilidade ao contactar com o ar húmido, formando a ferrugem que o destrói pouco a pouco. A ferrugem pode, pois, ser considerada como símbolo das matérias que atacam os metais e, de uma maneira geral, o reino mineral. Ora, na hierarquia dos reinos da natureza, o reino mineral corresponde ao plano físico; a ferrugem simboliza, pois, o que destrói o plano físico, o corpo humano.

Com os vermes, entramos no mundo astral, que é o do coração, dos sentimentos. Um ser cujo coração está cheio de ódio, de dúvida, de orgulho, de desprezo, de violência, é presa dos vermes. Não se diz, precisamente, que ele “se corrói”?... Se se corta um verme em pedaços pensando que se está a destruí-lo, verifica-se que, na realidade, ele se multiplica.

Do ponto de vista simbólico, é um fenómeno muito significativo, que se encontra no combate mítico de Hércules contra a Hidra de Lerna. A hidra era a monstruosa serpente de sete cabeças que renasciam à medida que eram cortadas; para a vencer, era preciso cortar as sete cabeças ao mesmo tempo. Hércules conseguiu vencer a hidra pelo fogo. Esta hidra representa os sete pecados capitais que renascem à medida que se tenta aniquilá-los. Só existe um meio de os destruir: o fogo divino do amor que queima todas as cabeças de uma só vez. Mas eu queria dizer-vos simplesmente que, ao falar de vermes, Jesus pretendia designar os inimigos que nos atacam no plano astral, certos desejos que nos corroem.

Os ladrões também são um símbolo. O ladrão está munido de chaves falsas, de um punhal ou de um revolver, e espera que a noite chegue para se pôr a trabalhar. Finalmente, quando todas as luzes se apagam, quando as pessoas estão a dormir, ele introduz-se na casa. Os ladrões simbolizam os nossos inimigos do plano mental. Aquele cujo intelecto está ensombrado ou entorpecido será atacado pelos ladrões, porque, por toda a parte onde reina a escuridão, os ladrões aparecem. Estes ladrões são entidades invisíveis – dúvidas, inquietações – que estão em vós. Todos esses pensamentos que vos deixam sem forças, fracos, esgotados, não são uma prova de que se trata de ladrões que vieram roubar os vossos bens? Mostrai-me os vossos tesouros de força, de alegria, de paz… Não podeis? É porque os ladrões os levaram. Os ladrões são os pensamentos que trabalham na escuridão para vos roubar as vossas aspirações, a vossa fé, etc.

terça-feira, setembro 27, 2022

Pensamento do dia

"Todos os seres, por mais grosseiros e materialistas que sejam, foram criados nas mesmas “oficinas” que os maiores génios ou os maiores Iniciados; só que, para eles, não chegou ainda o momento de manifestarem os mesmos dons, as mesmas virtudes. Mas esse momento chegará e eles procurarão a beleza, a pureza, a luz, a imensidão. Eles compreenderão que as atividades e os bens materiais só são necessários como um suporte, um recipiente, um envelope, para sustentar, abrigar ou conter a vida do espírito. E quando começarem a compreender que aquilo que consideravam essencial, na realidade, não passa do envelope, da casca, a sua maneira de olhar mudará. Sim, simplesmente a sua maneira de olhar: deixarão de focar-se nos recipientes e começarão a interessar-se pelo conteúdo, e isso será para eles o começo da verdadeira vida. "

domingo, setembro 18, 2022

Evangelho (Lc 16,1-13)

Depois, Jesus falou ainda aos discípulos: «Um homem rico tinha um administrador que foi acusado de esbanjar os seus bens. Ele o chamou e lhe disse: ‘Que ouço dizer a teu respeito? Presta contas da tua administração, pois já não podes mais administrar meus bens’. O administrador, então, começou a refletir: ‘Meu senhor vai me tirar a administração. Que vou fazer? Cavar, não tenho forças; mendigar, tenho vergonha. Ah! Já sei o que fazer, para que alguém me receba em sua casa quando eu for afastado da administração’.

»Então chamou cada um dos que estavam devendo ao seu senhor. E perguntou ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu senhor? ’ Ele respondeu: ‘Cem barris de óleo! ’ O administrador disse: ‘Pega a tua conta, senta-te, depressa, e escreve: cinquenta! ’ Depois perguntou a outro: ‘E tu, quando deves? ’ Ele respondeu: ‘Cem sacas de trigo. ’ O administrador disse: ‘Pega tua conta e escreve: oitenta’.

»E o senhor elogiou o administrador desonesto, porque agiu com esperteza. De fato, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz. «Eu vos digo: usai o ‘Dinheiro’, embora iníquo, para fazer amigos. Quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas. Quem é fiel nas pequenas coisas será fiel também nas grandes, e quem é injusto nas pequenas será injusto também nas grandes. Por isso, se não sois fiéis no uso do ‘Dinheiro iníquo’, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não sois fiéis no que é dos outros, quem vos dará aquilo que é vosso? Ninguém pode servir a dois senhores. Pois vai odiar a um e amar o outro, ou se apegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao ‘Dinheiro’».

segunda-feira, setembro 05, 2022

O pensamento

"No ser humano, o princípio masculino, o pai, é representado pelo intelecto, e o princípio feminino, a mãe, é representado pelo coração... E a união do princípio masculino com o princípio feminino faz nascer o filho: a ação. Todas as nossas ações são fruto dos nossos pensamentos e dos nossos sentimentos. Existem pessoas muito ativas cujo intelecto e cujo coração não estão muito desenvolvidos, mas também nelas a ação é necessariamente filha do intelecto e do coração, ou antes, da ausência de luz no seu intelecto e da ausência de calor no seu coração. Agir com inteligência e sensibilidade, ou irrefletidamente e sem nenhum sentimento, é sempre dar origem a uma atividade que é fruto do intelecto e do coração. A natureza do filho depende do grau de elevação e de cultura dos pais.

Quando os nossos pensamentos são bons e os nossos sentimentos também são bons, os nossos atos, que são consequência da sabedoria do nosso intelecto e do amor do nosso coração, são atos construtivos. O poder da nossa ação é consequência de uma ligação correta entre a sabedoria e o amor. "

"Para resolver os seus problemas, o ser humano tem em si próprio fatores extremamente eficazes: o pensamento, a vontade, a imaginação... Mas, como ele está habituado a só recorrer a meios exteriores, essas faculdades, evidentemente, não se desenvolvem. Há tantas pessoas que dizem: «O pensamento, o pensamento... Eu tentei e não deu resultado!» Porquê? Suponde que queríeis remediar pelo pensamento uma fraqueza física ou psíquica: para a formar, talvez tenhais demorado séculos, várias encarnações; então, como podeis imaginar que, por terdes decidido agora concentrar-vos nela durante dois ou três minutos, ireis eliminá-la? Talvez sejam necessários séculos, de novo!

Existe uma justiça no Universo e, quando se parou de acumular erros, são necessários muito tempo e muitos esforços para os reparar. Na realidade, a melhor solução é juntar os meios exteriores aos meios interiores para acelerar as coisas; mas, primeiro, há que começar a trabalhar com a alma, o espírito, o pensamento, e depois acrescentar, se necessário, um elemento físico para facilitar o processo. "

sexta-feira, agosto 12, 2022

Um amor para muitas vidas

Camões, em belíssimo soneto, relata a história do personagem bíblico Jacó. Precisando de se exilar, ele foi para as terras de seu tio materno, chamado Labão. Assim que viu uma das filhas dele, Raquel, por ela se apaixonou, perdidamente. Para obter o consentimento de tê-la como esposa, ele dispôs-se a servir a Labão, durante sete anos. No entanto, após esse período, o tio lhe deu a primogênita, Léia, para o matrimônio.

Registra Camões o desencanto do pastor que, vendo que assim, de forma enganosa, lhe era negada a sua pastora, começou a servir outros sete anos, dizendo: Mais servira se não fora para tão longo amor, tão curta a vida. O personagem é bíblico, a poesia traduz amor.

Mas, existirá, um amor que espere tanto tempo?


Uma médica conta que atendeu, em seu consultório, um casal, ambos na casa dos oitenta anos. Quando ela deu a notícia de que a esposa era portadora de cancro avançado de pulmão, viu as lágrimas percorrendo caminhos entre as rugas profundas, enquanto dizia o marido:

Tão pouco tempo com você. Mas cada minuto vale, para sempre.

Num primeiro momento, a médica imaginou que ele estaria  referindo-se ao pouco tempo que ainda estariam juntos. Então, soube que eram casados há apenas dois anos.

O esposo contou que conhecera a atual esposa quando eles tinham vinte anos. Moravam na mesma rua. Ele era casado, ela também. Quando a viu, pela primeira vez, se apaixonou. Mas, guardou o sentimento em seu coração para honrar o laço matrimonial. Durante anos, sofreu em silêncio. Aos setenta e oito anos, enviuvou. Dois anos depois, o marido dela morreu. Ele aguardou um ano, o que considerou respeito ao luto. Então, se aproximou e passaram a conversar todos os dias. Quando ele disse que a amava, para sua surpresa, descobriu que esse era igualmente o sentimento dela, desde a juventude.

Casaram-se octogenários. E ele, semelhante a Jacó, confessou: Posso dizer com toda a certeza: eu a esperaria por quantos anos ou quantas vidas fossem necessárias para ter um único dia de amor com ela.

Agradecia a Deus ter tido dois anos ao lado da mulher que sempre amara. E se propôs a cuidar dela, cada hora que Deus permitisse que ele se visse refletido nos olhos dela. Com tratamento radioterápico, ela viveu por mais seis meses. Fragilizada, continuou a ser profundamente amada por seu companheiro. Nada alterou o olhar amoroso dele: rugas, deformidades, cabelos brancos emaranhados, fraldas, cansaço.

Ela morreu numa noite enluarada, em sua casa, sem desconforto físico algum, de mãos dadas com seu amor. Ele se despediu dela com serenidade: Vai, minha amada. Vai tranquila. Lembra que tu transformaste a minha vida, que ficou linda depois de tua chegada. Eu vou ficar bem. Saudoso, mas sempre feliz por te ter encontrado e amado.

Lembramos Camões em outro soneto de amor: 

Alma minha, gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida descontente;

Repousa lá no céu eternamente

E viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste;

Memória desta vida se consente,

Lembra-te daquele amor ardente

Que já nos olhos meus tão puro viste.

Um amor para muitas vidas.

sexta-feira, julho 29, 2022

Sem limitações

Quantas vezes reclamamos por ter muito trabalho? Ter peso a carregar? Ter alguma coisa mais difícil para elaborar?

É comum que nos afirmemos incapazes de realizar isso ou aquilo. Quer dizer: damo-nos por vencidos, antes mesmo de tentar, de batalhar para conseguir. Muitas pessoas, no entanto, nos dão exemplos de que para quem deseja, nenhum obstáculo é bastante forte para impedir o alcance do objetivo.

Recordamos Beethoven que, totalmente surdo, compôs oito das suas sinfonias. É um testemunho do triunfo do Espírito sobre a matéria. Ravel compôs um concerto de piano para a mão esquerda, especialmente dedicado a um pianista amigo que perdera a mão direita na guerra.

Um dos mais extraordinários exemplos de triunfo sobre a matéria nos dá o polonês Arystarch Kaszkurewicz.

Poucos devem ter ouvido falar a respeito desse homem ímpar que morreu, no ano de 1989, no anonimato, em São Bernardo do Campo, Estado de São Paulo. Dedicou-se à arte sacra, notadamente à arte de vitrais, mosaicos e afrescos. Também fez cerca de vinte vitrais contando a História da Colonização do Brasil. Sua arte está espalhada em dezenas de igrejas, templos, basílicas e hospitais pelo país. Uma autora o chamou de O arquiteto dos deuses.A História desse artista poderia ser como tantas outras não fosse pela peculiaridade com que se desenrolou.

Arystarch era pós-graduado em Direito em Varsóvia e cursou Belas Artes na Alemanha. Nascido em 1912, durante a Segunda Guerra Mundial, sofreu a perda das duas mãos e do olho esquerdo, em consequência da explosão de uma granada. A limitação física e a perseguição aos poloneses fizeram com que ele escolhesse o Brasil para continuar vivendo com sua esposa e seu filho. Desejava reconstruir sua vida. Na época, havia um decreto em nosso país proibindo a imigração de deficientes físicos.

O país precisava de mãos laboriosas para a produção.

Foi por intervenção de uma instituição religiosa alemã que, em 1952, o presidente Getúlio Vargas lhe deu a autorização. Ele desembarcou no porto de Santos com a reduzida família e se fixou, posteriormente, em São Bernardo do Campo. A princípio, trabalhou como empregado em uma casa especializada em vitrais. Somente pedia uma coisa: que lhe arregaçassem as mangas.

Usava os tocos dos dois pulsos para segurar o lápis, a caneta, o pincel e trabalhava com rapidez. Peregrinou por todo o país, que adotou como lar, espalhando a beleza e a esperança, através de sua arte. Avesso à publicidade, morreu no anonimato. A poesia dos seus vitrais encanta as criaturas, mesmo que suas obras não tragam sua assinatura.

Não nos deixemos abater pelas tempestades da vida. Se temos um corpo perfeito, pensemos em quantos gostariam de usufruir dessa ventura. E, mesmo em suas limitações, se encantam pela vida e deixam a sua poesia, a sua alegria e a sua esperança para que outros com elas se felicitem. Limitados, se superam. Mutilados, afirmam com sua obra que o Espírito é soberano, senhor do corpo a quem governa. Pensemos nisso e não nos permitamos deixar de produzir o bem, o bom, o belo.

segunda-feira, julho 18, 2022

Michael Jackson - Earth Song (Official Video)

Pensamento do dia

"Quando se ouve falar de unidade no domínio da economia, da política interna ou internacional, trata-se sempre de uma unidade anárquica, como sucede com os bandidos, que se unem para praticar más ações. Não é nisso que reside a verdadeira unidade, mas é assim que as pessoas a compreendem: unir-se para se atirar a alguém e aniquilá-lo. Quando os membros de uma nação dizem «Unamo-nos!» e essa união só tem por objetivo combater o vizinho, não se está perante uma verdadeira unidade.

A verdadeira unidade deve ser sempre o mais ampla possível. Se um órgão realizar a unidade para si próprio, sem trabalhar em harmonia com os outros, pode ser que ele se sinta bem, mas os outros sofrerão e a unidade ficará comprometida. Quando falamos de unidade, subentendemos uma unidade universal, cósmica, da qual nada é excluído. Mas essa unidade deve ser feita primeiro em nós mesmos: todas as nossas células e todas as nossas tendências unidas em direção a Deus. Este esforço que fazemos reflete-se nas outras unidades, e todas essas unidades dispersas, unindo-se, formarão uma unidade universal."